
Namoro ou Amizade?
Robin Jones Gunn
Srie Selena 5

Ttulo original: Without a Doubt
Traduo de Myrian Talitha Lins
Editora Betnia, 2000

Digitalizado por deisemat
Revisado por deisemat





O incio do vero trouxe novas expectativas para Selena: sadas com os amigos, 1acampamento nas montanhas, e 1 deciso importante a tomar em sua vida...  NAMORO
OU AMIZADE? 
Aps a mudana de Paul para a Esccia, Selena resolve tir-lo dos seus pensamentos e deixar sua amizade com Ronny se aprofundar mais. Afinal de contas ele quase 
no sai da sua casa e  tima companhia. Mas quando tudo parecia leve e descomplicado, surge Drake, 1 rapaz maravilhoso da sua escola, convidando-a para sair. S 
que sua melhor amiga Amy est bastante interessada nele. E agora? Selena deve deixar as coisas do jeito que esto ou deve aceitar os convites de Drake para se conhecerem 
melhor, correndo o risco de magoar Ronny e Amy, seus melhores amigos?  Selena tem que enfrentar uma avalanche de sentimentos e situaes inesperadas que a deixam 
na maior dvida: namorar com Drake ou manter as amizades que ela lutou tanto para fazer?  Obrigada a encarar de frente seus conflitos, ser que Selena buscar em 
Deus ajuda para decidir o que fazer?



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SEMEADORES DA PALAVRA e-books evanglicos

Para
Ross, meu filho,
que est iniciando o segundo grau.
Espero que tenha muitos amigos e que juntos, vocs
possam aprofundar cada vez mais seu relacionamento com Deus.

      
Captulo Um
      
      Selena deu um leve puxo na aba do bon que tinha na cabea. Em seguida, tamborilou os dedos no basto de beisebol, firmando-os bem. Seu cabelo louro e encaracolado 
estava amarrado em um rabo-de-cavalo que saa pela abertura da parte de trs do bon.
      - Vamos l, batedora, faz seu giro! gritou uma voz.
      Dando uma olhada para a amiga Amy Degrassi, que se achava numa das extremidades do campo e lhe dirigira o gracejo, Selena abaixou um pouco a cabea, preparando-se 
para rebater.
      - Anda, pai! falou. Capricha ao mximo no arremesso! Vou rebater essa bola, seja qual for o jeito que o senhor mandar.
      Dava para perceber que seu pai estava gostando demais daquele passeio, nesse belo dia de vero. Era o Dia dos Pais, e ele se achava ali cercado dos familiares 
e amigos. Alis, o Parque Monte Tabor estava lotado de gente. Muitos faziam churrasco. Alguns jogavam bola e outros balanavam os filhos pequenos nas gangorras. 
Contudo somente o grupo da famlia Jensen ocupava a quadra de beisebol naquele momento. Ao que parecia, s eles tinham gente em nmero suficiente para formar dois 
times.
      - Vamos l, queridinha! gritou V May. Mostre seu talento!
      A av estava sentada numa cadeira de praia armada no gramado que circundava o campo.
      - Vou mostrar, v! replicou ela, remexendo-se no lugar. Vai ver que sou de ao!
      Todos os olhos se achavam fixos nela. O Sr. Jensen atirou a bola sem muita fora, mas em curva. Selena girou o basto, mas errou.
      - Primeira batida! gritou Ronny, imitando o vozeiro tpico de um juiz de beisebol.
      - No precisa falar alto pra todo mundo ouvir, reclamou a garota em tom brincalho.
      O rapaz devolveu a bola para o pai de Selena e passou a mo na testa que brilhava, molhada de suor. Seu bon estava com a aba virada para trs. No rosto, estampava 
aquele seu sorriso caracterstico, com os lbios meio tortos.
      - Esta  minha funo, senhorita, replicou.  para isso que me pagam milhes de dlares.
      Selena gostava do jeito como o colega acolhia as brincadeiras dela e respondia com outra. Semanas atrs, eles tinham ido juntos a um concerto de msica gospel, 
e desde ento Ronny passara a freqentar sua casa diariamente. E quando no ia, telefonava. A garota estava adorando a ateno que ele estava lhe dando.
      A famlia do rapaz tambm viera a esse passeio no parque, juntamente com os Jensen. Nesse momento, o pai dele, que estava na terceira base, gritou para a jovem:
      - Anda, Selena! Bate logo, campe! Quero correr para a base central!
      Harold Jensen, pai de Selena, deu uma olhada para o amigo e em seguida mandou a bola direto para a filha. Esta girou o basto, mas era tarde demais.
      - Ei! gritou ela. Eu estava distrada. Essa no conta!
      - Segunda batida! berrou Ronny.
      A garota fitou-o com ar de raiva e apertou mais o basto. Virou-se ligeiramente na direo do pai, que naquele instante pegava a bola de novo. Ele a segurou 
firme no centro da luva de beisebol e se preparou para atir-la.
      - Vamos l, batedora! gritou Amy de seu ponto no meio do campo.
      - Manda a bola longe, queridinha! falou V May.
      - Quer dizer, bem aqui na minha mo, comentou Ronny. Sr. Jensen, mande a redondinha bem aqui!
      Selena no deu ateno a ningum. Viu a bola vindo em sua direo, mas nem piscou. Girou o taco com um movimento perfeito, e ele pegou em cheio na bola. Ela 
s ouviu o barulho do impacto. Largou o basto no cho e saiu correndo para a primeira base. No quis nem olhar aonde a bola estava indo. Bateu o p na "p" da primeira 
base e partiu logo para a segunda. Deu uma olhada para a base central onde o Sr. Jenkins, pai de Ronny, chegara, marcando mais um ponto para o time. Ele estava gritando, 
torcendo para que tambm ela chegasse ali. Tocou rapidamente na "p" da segunda e partiu para a terceira.
      - Corre, Selena! dizia o Sr. Jenkins agitando os braos. Vai dar pra chegar! Corre!
      Ronny estava parado em frente ao pai, com um dos ps na "p", os olhos voltados para o campo, aguardando que lhe devolvessem a bola.
      Selena sentiu o gosto da vitria no momento em que bateu o p na "p" da terceira base, respirou fundo e partiu em direo  central. Adorava aquele surto 
de adrenalina. Se conseguisse chegar na central antes da bola, seu time seria o vencedor. A poderia gozar muito de seu irmo mais velho.
      A garota sentiu o corao bater forte e forou mais as pernas. Faltavam apenas alguns passos para chegar  meta. Percebeu que seu bon estava caindo. Ronny 
se posicionou firmemente junto  "p" com os braos erguidos, como se fosse uma muralha.
      Correndo em direo a ele, Selena gritou:
      - Sai da!
      Num ltimo impulso, ela se atirou para a base exatamente no momento em que Ronny dava um salto para agarrar a bolinha no ar. Selena "patinou" no cho, apoiada 
na perna esquerda. Seu p direito enganchou-se no de Ronny e os dois caram embolados, erguendo uma nuvem de poeira.
      - Ela bateu na "p"! gritou o pai do rapaz. Eu vi. Ela fez ponto!
      Selena tentou se levantar, tossindo e tirando o cabelo do rosto. Contudo foi Ronny quem recuperou o equilbrio primeiro e se ps de p, estendendo-lhe a mo. 
A garota bateu a mo na roupa para se limpar da sujeira e tossiu de novo, olhando para o rapaz. As grossas sobrancelhas dele estavam cobertas de poeira, parecendo 
uma tela com gotinhas de chuva.
      - Voc est fora do jogo! falou ele em voz bem alta.
      - Que fora que nada! replicou ela. Eu bati na "p", e voc sabe muito bem disso!
      Ronny deu um sorriso e esticou o brao na direo dela. Foi abrindo a mo devagarzinho, num gesto dramtico. Tinha os olhos fitos nos da colega, na expectativa 
de mostrar-lhe a prova de que ele vencera. Entretanto no percebeu que, no momento em que abriu a mo, a bolinha caiu.
      - Ah! exclamou Selena. Venci! Voc sabe muito bem que para eu estar fora do jogo, voc teria de ter pegado a bola. E ao que parece, meu amigo, no h nada 
em sua mo.
      Ronny olhou para a luva e em seguida para Selena. Afinal baixou os olhos e avistou a bolinha cada no cho.
      - Mas eu peguei! protestou ele.
      - No adianta! retrucou a garota. Para o ponto valer, voc tem de estar com ela segura na mo.
      Os outros jogadores haviam se aproximado da base central, cada um dando sua opinio sobre o caso.
      - Eu cheguei na base. Ns vencemos. Agenta essa a, companheiro! disse Selena, gozando do amigo.
      A jovem comeou a levantar-se, mas sentiu uma forte dor na perna esuqerda. Viu um filete de sangue escorrendo. Estava com um enorme arranho que comeava um 
pouco acima do joelho e ia at em baixo. Amy, que chegava correndo, notou-o tambm. Pegou o bon da amiga, que ficara cado, e disse:
      - Uh! machucou feio, hein?! Como  que voc foi deslizar sem proteo nenhuma na perna? Selena,  melhor ir lavar isso.
      - Vencemos! respondeu Selena em tom de triunfo. Eu falei que amos ganhar!
      - Foi roubado! exclamou Wesley, irmo da garota.
      Ele tinha um basto numa das mos e a luva de beisebol na outra. Dos filhos do casal Jensen, ele era o que mais se parecia com o pai. Tinha nariz reto, o cabelo 
castanho bem ondulado e era magro. E o que melhor lembrava o pai eram os olhos. Quando Wesley sorria, ele tambm exibia uma fileira de ruguinhas, que comeavam bem 
no canto, parecendo bandeirolas de festa. S que as do pai eram mais fundas e mais compridas.
      - , parece que o maravilhoso arremessador do seu time no foi preo pra mim! exclamou ela, gozando do irmo.
      - Voc sabe muito bem que foi desclassificada, respondeu ele, arrancando o bon da irm das mos de Amy e enfiando-o na cabea de Selena com a aba para trs.
      Kevin, o irmozinho de seis anos, aproximou-se do grupo. Ao ver o bon da irm do mesmo jeito que o de Ronny, exclamou:
      - Agora voc e o Ronny so gmeos!
      Para espanto de Selena, imediatamente o amigo passou o brao em torno dos ombros dela, puxando-a para si.
      - Somos mesmo! Somos gmeos!
      A garota ouviu um clique de uma mquina fotogrfica. Ergueu os olhos afastando a vista de Wesley e Kevin. Ento avistou Cody, o outro irmo, com sua esposa 
Katrina. Eles acabavam de chegar, trazendo tambm Tyler, o filhinho deles de mais ou menos dois anos.
      - Essa vai ser tima para o anurio da escola, disse Katrina, dando uma piscadela para a garota.
      Selena sentiu a dor na perna intensificar-se. Soltando-se do abrao lateral de Ronny, disse:
      - 'Pera a, gente. Volto j!
      E saiu em direo aos sanitrios, mancando ligeiramente. s suas costas ouviu a voz de Amy.
      - Wesley, vou buscar uma Coca para mim. Quer que eu traga uma para voc? indagou a colega.
      Selena j havia pensado diversas vezes que parecia que sua amiga estava interessada em Wesley. Agora teve certeza disso. A ttica que ela empregava para conquistar 
um rapaz era oferecer-lhe algo para comer ou beber. E Amy no parecia nem um pouco preocupada com o fato de seu irmo ser uns cinco anos mais velho que ela. At 
uns dez dias atrs, Amy s falava em Drake, um colega da escola. Contudo isso mudara assim que Wesley chegara de Corvallis, onde estudava, para passar as frias 
em casa. Agora ela vivia na casa de Selena; e seguia o rapaz, com seus belos olhos escuros, todas as vezes que ele passava por perto.
      Selena ainda no sabia direito o que pensar disso, isto , de Amy ficar de namorico com seu irmo mais velho. Achava at compreensvel a colega estar interessada 
nele. Alm de muito simptico, Wesley era atencioso e calmo; e gostava muito de ces, como Amy. Dois dias antes, Wesley resolvera fazer um passeio com Brutus, o 
cachorro da famlia - alis, um enorme So Bernardo - e sua colega se oferecera para ir junto. Selena  decidira ir tambm, embora com a sensao de que estava "segurando 
vela". Seu irmo tratara a colega com muita educao, conversando a respeito de assuntos que interessavam  jovem. Esse era o jeito dele. Selena duvidava de que 
a amiga tivesse entendido isso.
      Selena entrou no sanitrio pblico do parque, onde estava mais fresco. A toalha de papel estava cortada bem rente e ela se ps a procurar uma pontinha para 
pux-la. A primeira saiu toda rasgada, mas a segunda veio legal. Molhou-a e comeou a limoar o local onde a pele estava arranhada. Ardia muito.
      Na verdade, Selena no se espantava muito de Amy estar atrada por um cara mais velho. Ela prpria estivera interessada em Paul, que tambm era mais velho 
que ela. Alis, nos ltimos cinco meses, ele fora uma presena constante em seus sonhos e devaneios. Afinal, porm, Paul fora embora para a Esccia e isso representara 
o fim de suas fantasias. Mais ou menos na mesma poca, Ronny passara a dar-lhe mais ateno. E ela estava gostando bastante.
      Conseguiu limpar a perna facilmente e reparou que estava com um pequeno corte. O sangue parara de escorrer, mas achou gostoso o contato da toalha molhada em 
gua fria.
      Ento era essa sua situao no momento. Tinha as frias todas pela frente, e sua agenda estava repleta de planos de atividades com os amigos. E o melhor de 
tudo era que agora, pela primeira vez na vida, Selena estava sozinha no quarto. Dois dias antes, sua irm, Tnia, viajara para a Califrnia, onde pretendia iniciar 
a carreira como modelo. Ela convidara Selena para ir junto. Seria uma viagem de dois dias de carro. Contudo a garota no conseguira folga no trabalho. Trabalhava 
na lanchonete Mother Bear e j havia pedido  sua chefe, D. Amlia, uns dias de folga para um passeio que faria com a turma da igreja. Iriam acampar e fazer uma 
caminhada ecolgica. Pedira tambm para tirar uma semana em agosto, quando viajaria  Califrnia para assistir ao casamento de seus amigos Douglas e Trcia.
      E Tnia no ficara chateada. Na hora da despedida, haviam chorado, e por um instante Selena pensou se teria tomado a deciso certa. Seria mesmo melhor fazer 
o passeio com Ronny e Amy em vez de acompanhar Tnia? A questo era que, para surpresa geral, as duas irms, que haviam convivido dezesseis anos no mesmo quarto, 
sempre brigando, agora, de repente tinham ficado amigas.
      Amigas. Selena gostava dessa palavra. Tinha bons amigos e j estava na expectativa dos momentos agradveis que iria passar com eles nas frias. Tudo estava 
timo, a no ser por uma perguntinha incmoda que volta e meia lhe vinha ao pensamento. Contudo resolvera ignor-la. Fazia vrias semanas que a estava ignorando.
      Molhou o rosto e o pescoo com a gua fria e se sentiu melhor. Recolocou o bon na posio certa e passou o rabo-de-cavalo pela abertura que havia na parte 
de trs. Estava pronta para voltar para onde os outros se encontravam. Saiu do ambiente escuro do banheiro, deixando para trs seu caracterstico cheiro de mofo, 
e recebeu a claridade do sol no rosto. Ronny achava-se a alguns metros da porta, encostado a uma rvore. Ao que parecia, estivera esperando-a. O rapaz sorriu e caminhou 
em sua direo. Outra vez lhe veio  mente a pergunta incmoda:
      Ser que estou agindo certo?
      Mais uma vez, a garota afastou-a do pensamento. Retribuindo o sorriso do colega, disse:
      - No vai precisar dar ponto, no!
      - timo! respondeu ele.
      Adiantou-se e estendeu a mo para Selena, com uma atitude ligeiramente acanhada. Embora no tivesse certeza de como deveria agir, ela esticou a sua e os dois 
saram caminhando de mos dadas. Atravessando o belo gramado do parque, dirigiram-se para o setor em que estavam as mesas de piquenique, onde os outros se encontravam. 
Uma brisa leve soprou na copa dos velhos e imensos cedros. A garota teve a impresso de que as rvores sussurravam umas para as outras:
      "Olhe! Olhe! Eles esto de mos dadas! Que gracinha! Ele gosta dela e parece que ela tambm gosta dele!"
      Contudo, bem l no fundo do corao de Selena, ela ouvia uma outra voz que a enchia de dvida e ansiedade. Ela indagava:
      Selena, ser que voc est agindo certo? 
      

Captulo Dois
      
      Assim que se aproximaram do resto do grupo, Selena tratou de inventar uma desculpa para soltar a mo de Ronny. Fingiu que precisava ajeitar o rabo-de-cavalo 
e, para isso, teria de usar as duas mos. Tinha esperana de que ningum tivesse visto os dois de mos dadas. Caso contrrio, na certa iriam "gozar" dela; e o pior 
deles seria o Wesley.
      Nunca tivera um namorado (no que estivesse namorando o Ronny, relembrou-se) mas, se comeasse agora, na presena de todo mundo, mais tarde receberia muita 
gozao.
      - Ah, ainda bem que voc chegou, Selena, disse sua me, que segurava uma colher de servir. J vamos lanchar. Pronto, Harold, todo mundo j est aqui. Quer 
fazer a orao?
      - Claro. Vamos dar as mos?
      Ronny estendeu o brao e pegou a mo de Selena, enquanto todos iam se ajeitando, formando um crculo. A garota teve de reconhecer que era agradvel e reconfortante 
o contato com o rapaz. Ele tinha mos speras, pois trabalhava cortando gramados. Estava com doze clientes regulares e, portanto, podia-se dizer que possua uma 
microempresa. Nessa poca do ano, em Portland, era necessrio aparar a grama duas vezes por semana. Assim, no lhe faltava trabalho.
      Dou outro lado de Selena estava Kevin. No momento em que ele abaixava a cabea para orar, notou um olhar de satisfao no rosto de Amy, que se encontrava bem 
 frente dela. Obviamente, ela estava de mos dadas com Wesley.
      Assim que o pai encerrou a orao e todos disseram "Amm", Kevin soltou a mo da irm e dirigiu-se para o incio da fila. Ronny porm, continuou segurando 
a mo dela e lhe deu um leve aperto. Agora sim, a garota ficou muito sem graa. Se largasse a dele, o colega talvez a julgasse mal-educada. Se permanecesse como 
estava, todos iriam notar. Selena no entendia por que o rapaz no ficava envergonhado - como ela ficara - de saber que os pais dele os viam juntos daquele jeito. 
Deu um aperto na mo dele tambm e em seguida a soltou.
      - Quer que eu pegue um refrigerante pra voc? Indagou.
      Ah no! pensou horrorizada. Estou comeando a ficar igual a Amy!
      - Claro! disse Ronny. Traz uma Coca, se ainda tiver. Vou pegar um prato e colocar frango pra voc.
      - E muita salada de batata tambm, acrescentou ela, encaminhando-se para a caixa de isopor.
      Ao enfiar a mo no gelo, logo comparou a sensao que teve com o que sentira ao segurar a mo forte do Ronny. Nunca percebera antes como a mo pode ser sensvel.
      As pontas dos dedos transmitem todo tipo de sensao, pensou, pesarosa com sua atitude.
      - O Ronny  um cara legal, disse algum ao seu lado, em voz suave.
      - Virou-se. Era Katrina, sua cunhada. Estava vestida com um macacozinho estampado de girassis. Seu cabelo liso e fino caa em volta do rosto. A moa tinha 
um ar tranqilo, de quem era incapaz de matar uma mosca. Selena gostava dela, embora no fossem propriamente amigas ntimas. Isso talvez se devesse ao fato de que 
a garota tinha apenas doze anos na poca em que Katrina e Cody se casaram. Os dois haviam namorado durante o curso mdio e se casaram uma semana depois da formatura. 
Selena no conseguia nem imaginar-se casando com algum da a um ano, quando terminasse o segundo grau.
      - Vocs esto namorando? indagou a cunhada.
      - Namorando? repetiu Selena.
      Katrina sorriu e revelou a razo de sua pergunta.
      - Vi os dois de mos dadas. Achei que talvez estivessem namorando.
      - No, explicou a garota em tom calmo. Somos colegas. Apenas amigos.
      Pegou uma lata de gua tnica na caixa de isopor, pensando por que seria que no havia mais Coca.
      - Sabe se tem Coca naquela outra caixa? indagou.
      - Sei no, respondeu Katrina. Est querendo fugir do assunto?
      De repente, Amy apareceu ao lado delas.
      - Ela sempre muda de assunto quando a gente fala do Ronny.
      - Mentira, interveio Selena, enfiando a mo na caixa  procura de uma Coca.
      Amy olhou para Katrina com ar de quem confirma o que diz, levantando as sobrancelhas e dando um sorriso com os lbios fechados.
      - Ele  doido por ela, mas ela no quer admitir que tambm  louca por ele, comentou a garota.
      - Isso no  verdade, Amy, e voc sabe muito bem.
      Katrina olhou para a cunhada, fitando-a direto nos olhos.
      - A questo mais importante : voc gosta dele?
      Selena desviou o olhar. Embora apreciasse bastante as atenes que vinha recebendo de Ronny, no estava gostando nem um pouco desse interesse de Katrina em 
sua vida afetiva.
      - Claro, disse afinal. Todo mundo gosta dele.  um cara muito legal. Ah, que bom! Achei uma Coca. Tchau, gente!
      Virou-se e saiu. Entregou o refrigerante gelado para o Ronny. O rapaz continuava na fila e ainda no pegara nada para comer. Como era do seu jeito, deixara 
os outros irem passando  frente dele.
      - Com esse pessoal aqui, Ronny, a gente tem de avanar, disse-lhe Selena. Todo mundo avana. Vamos comear a nos servir, seno no sobra nada pra ns.
      Ela esticou o brao e pegou dois pratos descartveis. Instantes depois, ambos estavam repletos de comida, e eles foram procurar um lugar para se sentar. Acomodaram-se 
na mesma mesa onde estava a V May. A senhora tomava caf em uma de suas xcaras de porcelana. Ela s tomava caf, ch ou gua em uma dessas xcaras. Sempre que 
a famlia ia fazer um piquenique, tinha de levar o conjunto de pires e xcara. V May descansou o objeto sobre o pires e disse:
      - Oi, Paul! Como est voc?
      Selena mordeu o lbio.
      - Meu nome  Ronny, replicou o rapaz. O Paul  o outro, o que foi para a Esccia.
      O rapaz dirigiu um olhar compreensivo para a garota. Ele j convivia com a famlia de Selena havia algum tempo e j vira a av ter lapsos de memria, como 
agora. Sabia que era melhor no insistir no assunto.
      - O frango est gostoso, v?
      - Ainda no comi dele, respondeu a senhora. Mas esta salada de frutas est tima.
      Ela espetou com o garfo um pedao de melancia, erguendo-o em seguida. E com uma expresso inquisitiva no rosto suave, continuou:
      - Est bem doce para esta poca do ano, no est?
      - Bem doce, confirmou o rapaz. Est excelente essa melancia.
      Wesley chegou, introduziu as longas pernas sob a mesa, sentou-se no banco e colocou o prato  sua frente. Estava do outro lado, bem diante de Selena. Olhou 
para o prato da irm e comentou:
      - Puxa, voc come salada de batata, hein?!
      No prato dele havia trs vezes mais salada que no dela.
      - Olhe s quem est falando! exclamou Selena.
      - Estou com saudade da comidinha caseira da mame, explicou o rapaz.
      Assim que Wesley acabou de se ajeitar, Amy veio e sentou-se ao lado dele.
      - Achei que minha famlia era um bando de comiles, comentou ela, acomodando-se tambm. Mas essa famlia Jensen ganhou dos Degrassi tranqilamente. Pelo menos, 
este aqui ganha, concluiu, virando-se para o Wesley com um sorriso de admirao.
      A garota estava com o cabelo castanho-escuro e comprido amarrado num rabo-de-cavalo frouxo. Junto ao rosto, viam-se mechinhas encaracoladas esvoaantes, que 
realavam seus belos olhos escuros. Era uma linda jovem.
      - Quem  essa moa? quis saber V May.
      -  a Amy, v, explicou Selena. Lembra v?  a minha amiga Amy, aquela que foi jantar l em casa outro dia!
      - Ah, , na noite em que fizemos bife de pernil. J falei com Emma para no pr cebola em carne de porco, comentou V May, abanando a cabea e levando  boca 
mais salada de frutas. Mas ela sempre coloca cebola. Pe cebola em tudo. At no bife de pernil. D pra imaginar?
      - Na verdade, disse Amy em tom cauteloso, no jantar daquele dia teve foi espaguete. Quem  Emma?
      Selena inclinou-se para a amiga, fazendo um gesto para indicar que no adiantava tentar "consertar" as confuses de V May nem fazer com que a senhora voltasse 
 realidade.
      - E a, Ronny, principiou Wesley, segurando uma coxa de frango j pelo meio, voc tambm vai com o pessoal nesse passeio de que a Selena tem falado tanto?
      - Pretendo, respondeu o rapaz, se conseguir terminar todos os gramados a tempo.
      - Pois eu vou, replicou Amy em tom alegre. Venha tambm, Wesley!
      - No fao parte da turma da idade de vocs, replicou o rapaz.
      - E da? Voc pode ir como uma espcie de conselheiro, ou guia, ou como auxiliar do lder dos jovens. Voc precisa se divertir nestas frias. Afinal, voc 
ainda no est trabalhando!
      - Ah, obrigado, "mame", obrigado por me lembrar disso! exclamou o rapaz, girando os olhos.
      - Selena, insistiu Amy, diga pra ele que vai ser timo!
      - Vai ser timo, Wesley! falou Selena.
      - Ajuda a, Ronny! continuou a garota, procurando mais aopio.
      - Vai ser muito legal, Wesley! disse o rapaz, imitando Selena.
      - , voc dois esto muito convincentes! exclamou Wesley Pem tom irnico.
      - Ah, e por falar em legal, Amy, interveio Selena, quer ir l na Higland House hoje  noite? Ns vamos ajudar a servir o jantar l.
      - No vai dar, replicou ela. Vamos ter um jantar especial para meu pai hoje. E outra vez a senhorita mudou de assunto. Parece que ultimamente isso  tpico 
de voc.
      Uma das caractersticas de Amy de que Selena mais gostava era essa persistncia, isto , quando a amiga tinha por objetivo uma "causa nobre". Contudo, quando 
o alvo dessa persistncia era a prpria Selena, a no apreciava nem um pouco a atitude dela.
      E ela no largou do p de Selena nem do de Wesley. Na segunda-feira  tardinha, quando ia para o trabalho, passou pela casa da colega. A me de Selena foi 
quem lhe abriu a porta e mandou que ela subisse para o quarto da filha.
      Era uma casa grande, em estilo vitoriano, que fora construda em 1915 pelo pai do marido de V May. A famlia de Selena que antes morava na Califrnia, mudara-se 
para a manso em janeiro desse ano, para poder cuidar da av. Selena e Tnia tinham ficado com um quarto grande que havia logo perto da escada.
      Amy bateu  porta e entrou em seguida.
      - Oi! exclamou. Estou passando rapidinho. Tenho de estar no restaurante do meu tio dentro de dez minutos. Mas estou morrendo de curiosidade para saber o que 
aconteceu com voc e o Ronny ontem, l na Highland House.
      - Como assim?
      - Ah, Selena, deixe de onda! Vi os dois quando vieram embora. Estavam de mos dadas, to bonitinhos! Ele at abriu porta do carro para voc!
      - E da?
      - E da?! Isso me parece um comeo de namoro de frias! E como foi depois que vocs saram da Highland House? Ele te beijou?
      - Claro que no! Amy, quantas vezes tenho de dizer que somos apenas amigos? falou Selena, guardando um par de meias na gaveta e virando-se para o monte de 
roupas que estava sobre a cama. Ontem no aconteceu nada. Samos do parque e fomos para a Highland House. Ajudamos a servir o jantar e depois a lavar as vasilhas.
      - E depois disso no aconteceu mais nada? quis saber a colega.
      - No. Ele me trouxe em casa. Entrou. Ficou assistindo  televiso com meus irmos. Eu vim para meu quarto. Escrevi uma carta para Cris e depois fui dormir.
      - No acredito! exclamou Amy, sentando-se na cama que fora de Tnia e agora no estava sendo usada. No  assim que se arruma um namorado, Selena.
      - E eu no estou querendo arrumar namorado, no.
      - Isso est claro, replicou Amy secamente e, em seguida, correu os ilhos pelo quarto. O que  que est diferente aqui? indagou. Tem alguma coisa diferente.
      - Tnia foi embora e levou aqueles enfeitezinhos dela. 
      - No, mas no  s isso. O quarto parece que est... bom, parece que est vazio. Nunca vi seu lado do quarto arrumado assim. E voc tambm... voc est guardando 
as roupas!
      - , estou! falou Selena, levando para o armrio uma poro de roupas penduradas em cabides e arranjando-os nele.
      - Que  que est acontecendo? Voc est doente?
      - Resolvi arrumar o quarto,  s isso, explicou Selena. Ele  muito grande e fica pssimo cheio de roupas espalhadas por a.
      - U, voc no  disso...
      - Talvez seja, insistiu Selena, sentando-se ao lado da amiga e cruzando as pernas  moda oriental. Acho que agora que Tnia foi embora, o meu verdadeiro "eu" 
vai vir  tona, numa poro de pequenos detalhes.  possvel que, bem l no fundo, eu no seja bagunceira. S que nunca desenvolvi esse meu lado porque minha irm 
tem mania de arrumao. E ela mantinha tudo arrumadinho por ns duas. Pode ser que agora eu esteja descobrindo como sou de verdade. Entende o que estou dizendo?
      - Que esquisito!
      - Ah, que  isso? Voc tambm tem irms mais velhas! Voc tambm no mudou seu jeito de ser depois que elas foram embora?
      - No.
      - Nada, nada?
      Amy abanou a cabea.
      - Sempre fui a caula mimada. Quando elas foram embora, no mudei nada. Isso me deu uma idia. Em vez de fazer aquele jantar em minha casa quarta-feira, vamos 
faz-lo aqui?
      - Por qu? indagou Selena espantada.
      Estava estranhando o fato de Amy querer mudar o combinado com relao ao jantar delas. Fazia quase um ms que a amiga vinha arquitetando um plano para convidar 
Drake para ir jantar na casa dela. Selena concordara em ir com Ronny. Assim teriam um grupo de quatro. J haviam planejado tudo. Tinham marcado a data e depois desmarcado. 
Afinal, agora tudo estava combinado para a quarta-feira seguinte. Por que seria que Amy queria mudar o local do jantar?
      - Acho que aqui seria mais legal, explicou a garota. Em minha casa  muito silencioso e sem graa. Meus pais iro l para cima, para a sala de televiso, e 
ficaro l. Aqui tudo  mais cheio de vida e de agitao do que l em casa.
      De repente, Selena comeou a compreender.
      - Voc quer dizer  que l no vai ter o Wesley... 
      Amy pestanejou com ar de inocncia.
      - U, por que voc diz isso? Se vou ter um encontro com o Drake, pra que eu ia querer a presena do Wesley?
      - Foi s uma idia que me passou pela cabea, explicou Selena. Mas o fato  que aqui no iramos poder fazer um jantar do jeito que voc queria. Meus irmos 
iriam se intrometer e acabariam indo sentar-se  mesa tambm. Se voc quer mesmo um jantar como planejamos, tem de ser na sua casa.
      - 'T bom, 't bom, j que voc insiste...
      Amy olhou para o relgio e se levantou.
      - Tenho de ir embora. Ah, e por falar nisso, Wesley est a?
      Selena deu um sorriso, vendo que a amiga no era nada sutil.
      - No, respondeu. Foi procurar trabalho.
      - Ento diga para o seu irmo que espero que ele no arranje emprego antes do nosso passeio. Est bem? Diga-lhe que falei isso.
      - Eu digo, Amy. Tchau.
      A garota saiu apressadamente, fechando a porta. Selena deitou-se na cama de Tnia e ficou a olhar para o teto. A superfcie dele, bem irregular, pintada em 
branco marfim, tinha um desenho interessante. Para ela, parecia um bando de nuvens flutuando num cu de inverno, sem contato com a terra embaixo e sem obstculo 
algum l no alto.
      Era assim que ela gostaria de estar. Livre, leve e solta. Por que tinha de arranjar um namorado? Por que iria querer que seu reacionamento com o Ronny fosse 
diferente do que era? Era uma amizade clida, agradvel e descomplicada. Eram apenas amigos. Selena resolveu que nestas frias iria continuar assim, "flutuando", 
levada pela brisa, como sempre vivera. Como uma nuvem. Era isso que queria ser - uma nuvem.
      
      

Captulo Trs
      
      No dia seguinte, Selena chegou  porta da cozinha que dava para o quintal. 
      - Me, j estou saindo para o trabalho! gritou para a me que estava na horta, colhendo algumas vagens.
      A me se ergueu e lhe fez sinal para que esperasse. Andando com cuidado para no pisar nos ps de morango, ela deu uma corridinha at a porta. Sharon Jensen 
era uma mulher esbelta, de muita vitalidade, que parecia curtir plenamente a vida e os filhos. Adorava quando algum dizia que ela era muito nova para ser av. E 
ela j era, havia trs anos, desde que nascera o Tyler, sobrinho de Selena.
      Todo mundo dizia para Selena que ela se parecia com a me. E de fato parecia, com exceo do cabelo. O dela era louro, o da me, castanho-claro. Diziam tambm 
que a garota tinha o mesmo corpo dela. Selena, porm, nunca gostara muito de ter um jeito de menino. Sua irm, por exemplo, tinha um corpo muito bem feito. Comparando-se 
com ela, Selena se achava feia. Mas, vez por outra, quando via a me vestida de bermuda e camiseta sem manga, exibindo os braos queimados de sol, achava-a muito 
bonita. Tinha esperanas de que, quando ficasse mais velha, viesse a ser igual a ela.
      - Ser que d para voc passar no supermercado quando voltar do trabalho? Tem uma listinha ali em cima da mesa, junto com o dinheiro. Voc vai chegar mais 
ou menos s 6:00h, no ?
      - Devo chegar. Saio s 5:00h.
      - timo! exclamou a me, limpando o suor do nariz com a luva de jardinagem que usava. Um amigo do Kevin vai vir jantar aqui. Sabe se o Ronny vem tambm?
      - U! Por qu?
      - , ele tem vindo muito aqui  tardinha. S queria saber se ele no lhe lalou se vem hoje.
      - No. Ah, me, no d para saber com antecedncia o que ele vai fazer, no.
      - Bom. Se ele quiser vir, pode vir. Vou fazer comida de sobra.
      - O.k. 'T bom. J vou. At s 6:00h.
      Selena pegou a lista e o dinheiro e foi em direo ao Fusca 79, que estava estacionado  frente da casa. Entrou no carro e saiu barulhentamente para ir  confeitaria 
Mother Bear, onde trabalhava. Parou no estacionamento que havia atrs da loja e entrou. Eram exatamente 10:00h.
      O tempo passou voando, como sempre acontecia desde que D. Amlia, a proprietria da confeitaria, instalara ali uma mquina de sorvete instantneo. Ela pusera 
um cartaz, na frente da loja, logo acima da placa com o nome Mother Bear. Nele, havia um desenho de uma gigantesca casquinha de sorvete de iogurte. Com isso, a clientela 
da loja aumentara bastante, pois a meninada do bairro passara a vir ali com mais freqncia. Vinham tambm os funcionrios de uma clnica que ficava a um quarteiro 
dali, todos com seu uniforme caracterstico.
      Quando Selena comeara a trabalhar na confeitaria, alguns meses atrs, ela passava o tempo todo fazendo capuccinos e outros t ipos de caf. Agora fazia quase 
s os sorvetinhos de iogurte. D. Amlia falara em instalar tambm uma vasilha de chocolate quente, para fazerem a cobertura tipo esquim para o sorvete. Contudo 
Selena e os outros funcionrios lhe pediram que reconsiderasse a deciso. O sorvete em si j era trabalhoso e deixava tudo melando. Se ainda por cima tivessem de 
colocar a calda de chocolate que endurecia instantaneamente, iria ficar pior.
      Selena estava se arrumando para sair, quando D. Amlia se aproximou dela com o papel da escala de trabalho na mo.
      - Vamos conferir isto aqui, Selena, disse ela mordendo a ponta do lpis. Esta semana voc vai cumprir seu horrio normal e, na semana que vem, vai passar uns 
dias fora. Certo?
      D. Amlia era uma mulher baixa, gorducha, de gnio agradvel. Fazia questo de que todos os funcionrios usassem uniformes iguais. Desde que Selena comeara 
a trabalhar ali, ela j mudara os uniformes duas vezes. Nesta semana, eles eram cor-de-rosa, estampados com desenhos de casquinha de sorvete e cerejas.
      A garota, que estava pendurando seu uniforme, virou-se para ela.
      - . Vamos acampar e fazer um passeio ecolgico, est lembrada? Mas posso trabalhar normalmente no prximo sbado.
      - Acampar? Que animao, menina! Aonde vocs vo?
      - A um lugar no estado de Washington.  perto daqui.
      - Ah, dormir no cho frio, comer macarro instantneo e andar at doer as pernas... Que maravilha  ser jovem, n?
      Selena riu.
      - Vamos levar barracas. E no  to cansativo assim, no. Vai ser muito legal!
      - Bom, se voc acha... Ento voc vai na segunda-feira, n? disse ela, apagando alguma coisa e escrevendo outra. Na sexta-feira, ser que pode trabalhar de 
nove da manh s nove da noite? Estou planejando ampliar o horrio de atendimento agora nas frias, e estou tendo certa dificuldade para escalar o pessoal. Voc 
poderia vir nesta sexta?
      - Creio que sim. Normalmente, ajudo a servir o jantar na Highland House s sextas-feiras. Mas acho que o Tio Mac vai entender se eu no for, explicou Selena, 
abrindo a torneira e esfregando as mos debaixo da gua para limpar o doce.
      A primeira vez em que ela e o Ronny trabalharam na Highland House fora para fazer uma tarefa da escola. Depois disso, continuaram indo l para auxiliar no 
que fosse necessrio. Essa misso dava assistncia para crianas aps o horrio escolar e ajudava os pais na busca de emprego. Alm disso, oferecia jantar para alguns 
"sem-teto" da comunidade e tinha alguns leitos disponveis para desabrigados. A garota estava planejando realizar uma escola bblica de frias ali, pela manh, no 
ms de julho.
      O diretor da misso, que todos chamavam de "Tio Mac", estava encantado de ter Selena trabalhando ali. Ele tinha um carinho todo especial pela jovem, no apenas 
por causa da escola bblica, mas tambm porque o Jeremy, o namorado de Tnia, era sobrinho dele. Alis, Paul, o rapaz que fora para a Esccia, era irmo de Jeremy. 
Selena tinha certeza de que tudo acontecera por interveno divina.
      - Est bom, ento, falou D. Amlia. A escala est toda pronta. At quinta-feira!
      - At l! respondeu Selena com um aceno.
      A garota saiu rapidamente, antes que a chefe dissesse mais alguma coisa. Na verdade, gostava de conversar com ela, mas sabia que se comeassem, ficaria ali 
pelo menos mais uma hora.
      Para seu espanto, quando chegou perto de seu carro, viu Drake encostado nele, com os braos cruzados ao peito. Seu cabelo castanho-escuro refletia a luz do 
sol com um brilho avermelhado. Olhava fixamente para Selena, o queixo forte ddando-lhe um ar de firmeza.
      - A que devo o prazer desta surpresa, Sr. Drake?
      A prpria Selena se espantou com o que dissera. Onde seria que seu crebro fora buscar uma frase to antiquada? Talvez estivesse assistindo a muitos daqueles 
filmes antigos, em preto e branco.
      O nome completo do rapaz era Anton Francisco Drake. Ele nunca dera explicaes sobre um nome to sofisticado. Contudo preferia que o tratassem simplesmente 
por Drake, j que ningum parecia arranjar um apelido razovel para Anton nem para Francisco. E,  semelhana de seu inusitado nome, Drake, um atleta alto e forte, 
era uma personalidade singular.
      - Estou fazendo uma horinha, explicou ele. Deixei meu carro naquela oficina que fica do outro lado da rua para consertarem o silencioso. Passei aqui para v-la 
enquanto espero ficar pronto.
      - Ah,  que estou saindo do servio agora e tenho de dar uma passada no supermercado pra minha me.
      - Posso ir com voc?
      - Tudo bem, disse ela, sentindo que em seu rosto se estampara uma expresso de surpresa.
      Ela entrou no carro e inclinou-se para destrancar a porta do outro lado. Drake tambm entrou, ajeitando as pernas compridas no pequeno veculo, e imediatamente 
procurou ajustar o banco, empurrando-o para trs.
      - Est apertado? indagou Selena.
      - O espao  a conta certa, respondeu o rapaz.
      - Acho que Amy est trabalhando hoje, disse a garota no momento em que ligava o carro. Vocs tm se encontrado muito?
      Ela j sabia a resposta, mas queria ver qual era a reao dele,
      - No muito, disse Drake, ajustando mais o banco. Parece que toda vez que ligo pra ela, est trabalhando ou em sua casa.
      - Ah, entendi! falou Selena com um tom de riso na voz. Ento voc concluiu que se viesse me procurar, talvez pudesse encontrar Amy, n?
      - No, disse ele. Queria era conversar com voc mesmo.
      A garota sentiu o corao bater um pouco mais forte no momento em que passava sobre o quebra-molas que havia na entrada so supermercado. Por que seria que 
ele dissera aquilo? Ser que percebera que Amy no estava mais interessada nele?  Ou ser que era costume dele dar ateno a vrias garotas sucessivamente, para 
que nunca soubessem se estava de fato interessado em uma delas ou no? De qualquer modo, ela no deu resposta ao comentrio dele. Entrou em uma vaga e desligou o 
carro.
      - Tenho pouca coisa para comprar. Quer entrar comigo?
      - Claro.  melhor do que ficar lendo revistas na sala de espera da oficina.
      - A que horas seu carro vai ficar pronto?
      - Talvez s 18:30h, explicou o rapaz, deixando que Selena passasse  frente dele no momento em que chegaram  porta da loja que se abriu automaticamente.
      O supermercado tinha ar condicionado. O impacto do ar frio causou uma sensao agradvel em Selena e ajudou-a a organizar melhor as idias.
      Ele est s fazendo hora, disse para si mesma. No comece a imaginar coisas por causa do que ele disse.
      Era uma sensao estranha andar pelos corredores da loja seguida de Drake, que empurrava seu carrinho. E Selena logo se ps em ao. Deu uma olhada na lista. 
Comparou os preos de dois ou trs vidros de picles. Olhou a lista de novo. Fazia um bom tempo que no se sentia to nervosa como estava agora.
      - Acho que  s, disse, olhando o rapaz direto nos olhos pela primeira vez desde que haviam entrado na loja.
      Contudo, durante todo o tempo em que faziam as compras, sentira que ele estivera olhando para ela. Drake conduziu o carrinho para um caixa rpido, onde se 
passavam at dez volumes. Em seguida, ajudou a garota a colocar as compras no balco!
      - Faz um clculo, disse ele.
      - Um clculo?
      - Em quanto vo ficar as compras?
      - Sei l. Espero que seja menos de vinte dlares, porque s tenho isso.
      - Acho que vai ser onze dlares e sessenta e sete centavo! Vamos l. D a sua opinio.
      Selena tirou os olhos do rapaz e do seu sorriso simptico e foi mentalmente fazendo a soma dos artigos que comprara.
      - Nove dlares e dezessete centavos, falou.
      - Acho que no, retorquiu Drake, com os olhos brilhando, O total deu $14,92.
      - $14,92! exclamaram os dois ao mesmo tempo.
      - O que foi que comprei, afinal? indagou Selena.
      - Ei! Um quatro nove dois, repetiu o rapaz. Foi um ano timo para as navegaes! Que o diga o Cristvo Colombo!
      Ele sorriu satisfeito. Selena abanou a cabea com a piadinha dele e entregou ao caixa a nota de $20 dlares. Drake carregou as compras para ela at o carro.
      - Deve ter sido o tomate, disse ele. No  poca deles agora.
      - E como  que voc sabe, seu especialista em tomates?
      O rapaz deu de ombros e colocou a sacola de compras no banco de trs.
      - Na horta l de casa tem uma poro de ps de tomate, e eles ainda esto midos e verdinhos. No tem nenhum grande e maduro.  por isso que sei. No preciso 
ser nenhum cientista para saber disso.
      Selena acomodou-se no banco do motorista e deu uma olhada ao seu reflexo no retrovisor, enquanto Drake se ajeitava ao seu lado. O rosto dela estava vermelho, 
refletindo o calor que sentia por dentro.
      - Ser que voc poderia me deixar l na oficina, antes de ir para casa? indagou ele. Ou melhor, de repente voc poderia me levar l e esperar um pouco. Eles 
no deram certeza de que fivaria pronto hoje.
      Drake entrou na oficina e a garota se ps a aguardar. O rapaz se dirigiu ao balco e conversou alguns minutos com o mecnico. Milhares de pensamentos vieram 
 mente dela, mais parecendo pequeninos confetes bailando ao vento.
      Por que ser que ele est sendo to atencioso comigo? Nunca imaginei que o Drake poderia ter interesse por mim! Isso  to agradvel! Ainda estou admirada 
de ele ter me procurado!
      O rapaz voltou para o carro correndo lentamente, como quem faz cooper. Mais parecia um jogador de futebol entrando em campo e j esperando os aplausos da arquibancada. 
Selena abaixou o vidro do seu lado. Ele se inclinou para ela, apoiando os braos musculosos na janela.
      - Parece que ainda no ficou pronto. Terei de voltar aqui amanh.
      - Quer que eu te d uma carona at em casa? indagou a garota.
      Drake estava to perto dela que seu rosto se achava a poucos centmetros do de Selena. Inesperadamente, ele estendeu a mo e com a ponta do dedo, limpou algo 
no rosto dela. Instintivamente, Selena levou a mo ao mesmo lugar e ficou a esfregar de leve.
      - Que foi? quis saber a garota.
      - Era um bichinho, ou algo assim.
      - Talvez um pernilongo, disse ela. Eles j esto a me perseguir. Os pernilongos me adoram!
      - Sabe o que se diz por a? Que eles gostam de gente de sangue doce.
      - Ah,  mesmo? indagou Selena. Minha me diz que  porque no como muita vitamina B.
      Drake deu a volta e entrou no carro. Selena sentiu o rosto avermelhar-se.
      Ei! pensou ela. O que h de errado comigo? Fico aqui falando de pernilongos e de vitamina B, enquanto o Drake est no meu carro, sentado ao meu lado.
      - Pra onde vamos, ento? perguntou ela.
      - Isso vai depender da resposta que voc me der, replicou ele. Quer ir jantar comigo?
      
      

Captulo Quatro
      
      Os dois subiram a escadinha da entrada da casa de Selena lado a lado. A garota abriu a porta e o rapaz entrou com a sacola de compras.
      - Oi, pessoal! gritou ela.
      Ningum respondeu. Foram para a cozinha e ouviram vozes vindo do quintal. Parecia que havia um funil invisvel que ia do deque * at a cozinha, trazendo os 
sons l de fora para dentro. Selena fez sinal ao amigo para que colocasse as compras em cima da mesa e espiou pela janelinha que havia acima da pia. O pai dela estava 
junto  churrasqueira porttil abanando o fogo para afastar a fumaa. V May achava-se sentada numa espreguiadeira,  sombra de um dos imensos carvalhos do quintal. 
Kevin e o coleguinha estavam brincando com Brutus. Seguravam uma varinha e a erguiam bem alto para que o co saltasse para peg-la. A me de Selena estava de p 
junto  mesa, segurando um jarro de ch gelado e conversando com Wesley. Dilton, o filho de oito anos, como de costume, j se encontrava sentado  mesa, pronto para 
jantar.
      A garota teve a sensao de que, espiando seus famliares daquela maneira, parecia estar escutando s escondidas.
      - Vamos l, disse Selena, conduzindo Drake para fora. Todo mundo est aqui fora.
      - Ela chegou! exclamou Wesley, avistando a irm que sara ao deque.
      - Pessoal, disse a garota, este aqui  meu amigo Drake, um colega da escola. Mame, o jantar d pra mais um?
      - Claro! Prazer em conhec-lo, Drake.
      - Igualmente, respondeu o rapaz. Obrigado por me deixarem "invadir" seu churrasco desse jeito.
      - Tem problema no, interveio o pai de Selena junto  churrasqueira. Sempre fazemos comida de sobra. Pode vir  hora que quiser. Mais uns cinco minutos e os 
hambrgueres ficam prontos.
      - Oh! exclamou a me, virando-se para Selena. Fez as compras que pedi? Tenho de picar os tomates e trazer os temperos para a mesa.
      E saiu em direo  cozinha.
      - T na hora de jantar, V May, disse a garota, aproximando-se da av e dando-lhe um beijo no rosto. Est com fome?
      - Oh, j? replicou a senhora, olhando para a neta. Quando voc chegou?
      - Agorinha mesmo! A senhora j quer jantar?
      - Ah, e como foi de viagem? Foi bom l? insistiu a av, ajeitando o cabelo e remexendo-se na cadeira.
      - Foi timo, respondeu Selena, entrando na "fantasia" da av e estendendo-lhe a mo para que se erguesse. Venha aqui, v. Vou lhe apresentar meu amigo Drake.
      As duas caminharam de braos dados at a mesa. A senhora parou e deu uma boa olhada para o rapaz. Sorriu para ele cordialmente e sentou-se em seu lugar de 
costume. Selena ficou aliviada de a av no ter dito mais nada. Talvez Drake no compreendesse que a mente dela estava meio confusa. A garota sentou-se ao lado do 
amigo. Todos os demais estavam com os olhos fixos nele, esperando que dissesse algo. Selena sentia-se feliz e confiante. No era sempre que uma pessoa importante, 
como Drake, vinha  sua casa, como seu convidado. 
      - Olha a, gente! exclamou o pai. J vou levar os hambrgueres.
      - O cheiro est timo! falou Drake, esfregando as mos em expectativa.
      - J vou comear dando-lhe dois, disse o pai de Selena.
      - Mas ser que d pra todo mundo? indagou o rapaz.
      - Sempre tem de sobra, interveio Dilton com sua vozinha infantil.  porque o Ronny vem muito aqui pra jantar. Voc conhece o Ronny?
      - Claro!
      -  o namorado da Selena, concluiu o garoto.
      - Nao  no! interveio a garota imediatamente. Quer dizer, voc sabe, continuou ela, olhando para o colega e em seguida para o irmo. Ronny  s meu amigo. 
No  namorado, no.
      - Ento como  que voc estava de mos dadas com ele?
      Selena sentiu o rosto queimar. Tinha a impresso de que o irmo sabia que estava irritando-a e deixando-a constrangida. E certamente ele "curtia" muito a condio 
de irmozinho gozador.
      Naquele exato momento, a me de Selena veio da cozinha para o deque com uma bandeja de temperos. Tinha os olhos fixos na filha e imediatamente a garota compreendeu 
por que: Ronny vinha logo atrs dela. Haviam escutado tudo na cozinha.
      - Chegou na hora certa, Ronny! disse o pai de Selena, poupando a filha de um momento embaraoso. Est com fome?
      - Ele sempre est! interveio Kevin.
      - Vem sentar aqui! convidou o pai.
      - Oi, Drake! falou o recm-chegado. Como vai?
      Ele aproximou-se da mesa, ainda com sua roupa de trabalho. Sentou-se perto de Dilton, como se j fosse uma pessoa da famlia. Ao que parecia, o que Selena 
dissera momentos antes e que ele ouvira da cozinha no o havia afetado em nada. A garota porm, se remexeu nervosa, olhando de um rapaz para o outro.
      - E voc, como vai? indagou Drake para Ronny.
      - timo! Estou com mais dois clientes para aparar grama, na rua Belmont. Voc no quer mesmo trabalhar comigo nestas frias?
      - J estou comprometido, cara, respondeu o outro. Vou trabalhar com meu pai o perodo todo. J prometi a ele.
      Selena ficou a olhar os dois colegas, passando um para o outro o frasco de ketchup, e conversando sobre o trabalho das frias. Evidentemente, no se importavam 
de estarem de amizade com a mesma garota. Por que ela ento deveria sentir-se to incomodada?
      E o jantar foi prosseguindo normalmente,  maneira tpica da famlia Jensen - muita comida e conversa animada. Ningum parecia achar estranho que Selena estivesse 
acompanhada de dois rapazes; s a prpria garota.
      Quando todos terminaram, ela prontamente se ofereceu para ajudar a tirar a mesa e ir buscar a sobremesa. Pegou vrios pratos e foi acompanhando a me at a 
cozinha. Parada junto a janela, escutou Wesley perguntando se algum queria jogar basquete com ele depois que acabassem.
      - Isso est certo? indagou Selena para a me, afastando-da janela.
      - O qu?
      - Uma pessoa estar acompanhada de dois caras.
      - Para mim, parece certo, replicou a me. E voc? O qur acha?
      - Esquisito, explicou Selena, dando um suspiro e encostando-se  mesa. Fiquei to encantada quando vi que Drake fora l no servio para me ver. Achei que talvez 
ele estivesse, , bom... a senhora sabe... me paquerando ou algo assim.
      - Ele lhe deu essa impresso?
      - ... um pouco, acho. Ah, no sei.
      A me tirou o sorvete do freezer e se ps a colocar algumas bolas nas tigelas que havia espalhado na mesa.
      - Selena, pegue os morangos no congelador pra mim, disse ela.
      - Sabe o que estou comeando a perceber? principiou a garota, pegando uma vasilha grande contendo as frutinhas. Que no entendo muito de rapazes. A Tnia costumava 
dizer que eu era dessas pessoas que demoram mais a "crescer". E embora no gostasse muito dessa idia, tenho de reconhecer que ela tinha razo. Tudo isso  novidade 
pra mim. Quero dizer, no entendo por que o Drake tinha de me procurar se  a Amy que est interessada nele.
      - Muito simples, respondeu a me, porque voc no est interessada nele.
      - Ah, ento por causa disso eu sou como que um desafio para ele?
      - . Mais ou menos isso. Aqui, vai colocando os morangos em cima do sorvete, 't?
      - A questo  que estou interessada no Drake. Bom, pelo menos acho que poderia me interessar por ele, se ele estiver gostando de mim.
      - E o Ronny? Como  que fica?
      - Essa  que  a parte esquisita. No quero que ele se afaste de mim por causa do Drake.
      A me de Selena olhou l para fora, pela janela, e comentou:
      - Ah, acho que o Ronny no vai se afastar, no.
      - Mas e a Amy, me? Ns j combinamos de fazer um jantar na casa dela amanh  noite para esses dois. S que o Drake  o acompanhante dela e o Ronny  o meu. 
Mas agora estou achando que ela vai ficar furiosa se souber que o Drake veio aqui hoje.
      - Porqu?
      - Porque ela gosta dele.
      - Ser?
      Selena se sentiu mais confusa do que estava quando comeara a conversar com a me. No estava conseguindo clarear as idias. Tudo que ela perguntava a me 
respondia com outra pergunta.
      - A senhora no pode me dizer como uma garota crente resolve toda essa situao? indagou em tom de splica.
      - No.
      - No, me?
      A me largou a colher de servir sorvete e colocou a mo suavemente embaixo do queixo da filha.
      - Faz dezesseis anos que estou lhe ensinando isso, filha. J est na hora de voc mostrar o que aprendeu. Quero ver o que h dentro dessa sua cabea.
      - Essa  tima! exclamou a garota, vendo a me colocar sorvete nas duas ltimas tigelas. A senhora vai deixar que eu resolva tudo isso sozinha!
      - Voc sabe muito bem que nunca est completamente sozinha, replicou a me.
      - , sei, concordou Selena, colocando uma poro de morangos na ltima tigelinha. E a senhora no vai dizer o que sempre diz: "As mes no podem estar com 
os filhos em toda parte, por isso Deus mandou o Esprito Santo"?
      - , voc j aprendeu, disse a me, colocando as tigelas numa bandeja e saindo em direo  porta.
      Antes de sair, virou-se ligeiramente para trs e deu um sorriso para a filha. Era um sorriso alegre, como o que ela dera para Selena no Natal passado, no momento 
em que esta abrira o presente que recebera dos pais. Era uma passagem de avio para ir  inglaterra, onde participaria de um trabalho missionrio.
      - No h dvida, Selena, disse ela, de que estas frias sero as melhores que voc j teve. Tenho certeza disso.
      A garota olhou para a me que saa porta afora e em seguida ouviu a portinhola de tela bater no batente, um rudo muito reconfortante. Tinha a sensao de 
que ela e a me haviam oficialmente passado a um outro nvel no seu relacionamento. Uma porta invisvel como que se fechara, encerrando o que houvera at agora, 
e outra se abrira, iniciando uma nova etapa da vida: o futuro.
      
      

Captulo Cinco
      
      Eles ficaram jogando basquete na entrada da casa de Selena at mais ou menos s 10:00h.* Drake, Ronny e Wesley monopolizaram a bola, mas a garota e o pai foram 
se intrometendo no jogo e acabaram fazendo algumas cestas tambm. De certa forma, todo o cenrio era tpico de uma noite de vero, como na infncia de Selena. A 
claridade do dia ia at mais ou menos s 9:30h. Os grilos, no gramado, faziam soar sua sinfonia noturna. Kevin e Dilton soltavam gritos alegres, intercalados com 
os latidos de Brutus. Wesley agia como se estivesse com seus prprios colegas, discutindo amistosamente por causa de uma ou outra jogada. S que nesse dia, os caras 
com quem estava jogando eram amigos de Selena, e no dele.
      E o tempo todo, Selena se sentia tensa, dominada por sentimentos estranhos. A me estava certa de que ela saberia resolver os problemas de relacionamento com 
os rapazes. A prpria, porm, no tinha tanta certeza disso. Havia muitos detalhes ainda indefinidos. Ser que Drake estava mesmo interessado nela? Amy ainda estaria 
gostando do rapaz? O que aconteceria no dia seguinte, na casa de Amy, se Drake fosse o acompanhante desta, mas desse mais ateno a Selena?
      - T' na hora de ir embora, disse Ronny afinal. Tenho de pegar servio amanh cedo. A que horas vamos  casa da Amy?
      -  amanh? indagou Drake, segurando a bola debaixo do brao e lempando o queixo com a barra da camiseta.
      Selena sentou-se na grama, perto da rampa de entrada. Esticou as pernas, cruzando os ps. Apoiando-se nas mos, atrs das costas, ergueu a cabea para eles 
e indagou:
      - Vocs ainda querem aquele jantar? 
      - Quero! disseram os dois juntos.
      - Claro, continuou Ronny. Por qu? Vocs esto mudando de idia, com medo de comermos muito?
      - No! De forma alguma! replicou a garota.
      E pensou consigo mesma que nem Drake nem Ronny pareciam achar estranho o fato de os dois estarem ali visitando-a. Tinha a impresso de que ambos estavam aguardando 
ansiosamente o jantar do dia seguinte. O que seria que isso significava?
      - T' bom, disse ela, levantando-se e batendo na traseira da cala para limp-la. s 6:00h na casa da Amy. E lembrem-se de que  um jantar chique, viu?
      Com o canto dos olhos, percebeu que Wesley, que se achava de lado, tinha no rosto uma expresso zombeteira.
      - Que  que voc est achando engraado? indagou ao irmo.
      - Nada. Parece que vocs vo passar uns momentos bem agadveis, disse ele, abrindo mais o sorriso.
      - Vem voc tambm, falou-lhe Drake, jogando a bola em sua direo. Tenho certeza de que a Amy no vai se importar nem um pouco.
      Ser que o Drake sabe da paixonite da Amy pelo Wesley? pensou Selena.
      - No, obrigado. Uma outra ocasio, talvez.
      - T bom, disse Drake, e virou-se para Ronny. Pode me dar uma carona at em casa?
      - Claro. J quer ir?
      - Quero, respondeu ele e, em seguida, olhou para a garota e sorriu. Obrigado pelo jantar, Selena, disse.
      - , ajuntou Ronny, foi timo.
      Os dois saram em direo  picape de Ronny. Chegando a meio-fio, ambos pararam e se viraram para acenar em despedida.
      - A gente se v na Amy, ento, gritou Ronny.
      Assim que o carro arrancou e foi descendo a rua, Wesley soltou uma risada franca.
      - Que foi? indagou Selena.
      Agora estavam s os dois na entrada da casa e parecia que o ar noturno esfriara um pouco. Quando estavam jogando, ela no notara isso.
      - Irmzinha, voc ainda vai deixar muitos coraes partidos! disse o rapaz, girando a bola na ponta do dedo indicador e pegando-a de novo antes que ela casse.
      Selena no soube dizer se ele estava lhe fazendo um elogio ou "gozando" dela.
      - Quantos anos voc vai fazer em novembro?
      - Voc sabe, respondeu ela em tom firme. Dezessete.
      O rapaz intensificou o sorriso, fazendo aparecer as ruguinhas nos cantos dos olhos.
      - E o que  que tem de engraado nisso? indagou ela meio irritada.
      - Nada no.  s que no reparei que isso estava acontecendo. Minha irmzinha Selena cresceu, e os rapazes j esto comeando a vir  nossa porta. Ainda me 
lembro da poca em que o telefone tocava sem parar, com rapazes ligando para a Tnia.
      - S que ela comeou com treze anos, e no com dezesseis, no foi?
      - Mais ou menos isso.
      Weslwy aproximou-se da garota e ps o brao no ombro dela, dando-lhe um leve aperto. Estava suado e com cheiro forte.
      - Agora  sua vez, loirinha. Mas v com carinho com o Ronny. Gosto muito dele.
      - ? E quem foi que pediu sua opinio?
      - Nem precisava pedir. Como entendido no assunto, sempre dou meu parecer de graa. E acho que o Ronny  mais o seu tipo.
      - Ah ? indagou Selena em tom brincalho, dando um tapa na bola que estava na mo dele. E que tipo  esse?
      A bola caiu ao cho e rolou pela rampa abaixo, indo parar na rua. Wesley cruzou os braos, tentando assumir um ar ameaador.
      - V pegar a bola! disse.
      - Eu no. No sou seu cachorro! V voc! replicou Selena com as mos na cintura, a cabea inclinada para trs num jeito de rebeldia.
      Estava esperando que o irmo fosse agarr-la, atrapalhar seu cabelo, jogar um punhado de grama no rosto dela. Ou ento ele iria peg-la, segur-la debaixo 
do brao e arrast-la at onde a bola se encontrava para que ela a pegasse.
      Wesley olhou para ela pensativo, como que imaginando qual dessas tticas seria a melhor. De repente, a expresso dele mudou. Fitou-a com ar de ternura, em 
vez de gozao. Em seguida, pigarreou e disse em voz bem sria:
      - Se alguma vez voc precisar se abrir com algum sobre rapazes ou algo assim - principalmente agora que Tnia no est mais a - pode falar comigo. Vou ficar 
por aqui as frias todas. Alis, voc j sabe que pode conversar comigo, no sabe?
      Era a ltima coisa que Selena esperava que o irmo dissesse.Ser que, com Wesley tambm, ela entrara numa porta invisvel, assim como passara para um novo 
nvel de relacionamento com a me?
      - Claro que sei. Obrigada! respondeu ela, com a sensao de que era a resposta certa.
      Wesley sorriu.
      - Desta vez, eu pego a bola, disse ele e saiu correndo rua abaixo.
      Selena entrou em casa abanando a cabea. Subiu a escada pensando no que estava acontecendo em sua vida, tentando dar um sentido a tudo.
      Ser que tem um cartaz na minha testa dizendo: "Podem me trata como uma pessoa adulta"? Ou ser que, como Drake veio aqui hoje, todos esto pensando que entrei 
na fase dos namoros?
      Fosse qual fosse a razo, o certo  que ela no estava entendendo a mudana de atitude. Fora pega de surpresa.
      Na manh seguinte, Selena teve outra surpresa, assim que desceu para tomar caf. Tinha idia de comer algo e logo em seguida telefonar para Amy e relatar-lhe 
o que acontecera na noite anterior. E quando tomava banho, at estudou o que diria para ela.
      "Amy", pensou, "preciso lhe contar que o Drake veio jantar em minha casa ontem. Quero saber o que voc pensa disso, e se ainda quer dar o jantar para os rapazes 
hoje. Se voc no estiver mais interessada no Drake, ento..."
      Todas as vezes que chegava a esse ponto, no sabia mais o que dizer. Certamente, depois que comesse uma tigela de flocos de cereal e uma banana, as idias 
ficariam mais claras. Contudo, assim que entrou na cozinha, j encontrou a amiga sentada  mesa, diante de vrias caixas de flocos, chorando muito. Wesley se achava 
perto da pia, com um copo de suco de laranja na mo. Os dois se viraram para Selena assim que ela pisou o p ali.
      - O que foi? indagou ela prontamente, olhando primeiro para o irmo e depois para a amiga.
      Amy fungou forte e deu um suspiro profundo.
      - Meus pais resolveram ter uma briga colossal agora de manh; e ficaram gritando um com o outro. Meu pai saiu pisando duro e mame se trancou no quarto. Detesto 
quando eles fazem isso.
      Selena sentou-se ao lado da garota e passou o brao nos ombros dela.
      - Tenho certeza de que vai dar tudo certo. A raiva deles no cotuma passar depois de uma ou duas horas?
      - Geralmente, sim, replicou Amy fungando de novo. Mas no sei o que devemos fazer com relao ao nosso jantar hoje. E se eles brigarem outra vez, quando vocs 
estiverem l? No quero isso.
      -  melhor no irem, comentou Wesley, intervindo na conversa. Pode ser que eles precisem conversar, quando seu pai chegar do trabalho. Desmarquem o jantar, 
gente, e combinem outra data.
      - J desmarcamos umas quatro vezes! explicou Amy.
      A garota se levantou e foi ao balco onde pegou um guardanapo. Enxugou os olhos e assoou o nariz.
      - Acho que devemos  esquecer tudo e cancelar esse jantar, continuou ela. Vou dizer para o meu tio que no vamos mais querer as lagostas hoje.
      - Lagosta? perguntou Wesley.
      - Podemos fazer o jantar aqui, disse Selena.
      - Voc tem certeza de que seus pais no se importariam? indagou Amy, alegrando-se um pouco.
      Selena sabia que Amy no podia ter previsto que os pais iriam brigar. No; aquilo no era armao dela s para que Wesley tambm participasse do jantar. Entretanto 
tudo estava dando certinho para a amiga.
      - Tenho certeza de que est tudo bem, respondeu ela. Vou telefonar para o Drake e o Ronny e combinar com eles. Quer mesmo que seja s 6:00h?
      - Claro. Posso pegar a lagosta qualquer hora,  tarde. Ainda temos de comprar os pezinhos e os ingredientes para a salada. Precisamos tambm escolher um tipo 
de legume. Qual voc prefere?
      - Abobrinha, disse Wesley prontamente, feita do jeito que mame faz.
      - Ela no perguntou pra voc, no, interveio Selena, olhando para o irmo com uma expresso de quem diz: "D o fora daqui!"
      - E o que vai ser de sobremesa? quis saber Amy.
      A campainha da porta tocou e Wesley foi abri-la. Selena sentiu que era a chance de ter aquela conversa particular com a amiga. Respirou fundo.
      - Preciso lhe fazer uma pergunta, principiou. O que voc sente pelo Drake?
      Amy fitou-a com ar de espanto.
      - Quero dizer, voc ainda gosta dele? prosseguiu Selena.
      - Claro que gosto. Sempre gostei do Drake. Quem no gosta?
      No era essa a resposta que Selena esperava.
      - Por qu? indagou Amy.
      - Achei que voc no estava mais interessada nele.
      - No! Estou muito interessada nele, sim, replicou a garota, abanando a cabea. Drake no  propriamente louco por mim, mas creio que se ele me conhecer bem 
poder mudar de idia.  por isso que eu queria tanto fazer esse jantar. Por que voc perguntou isso?
      Selena pegou uma tigela e colocou um pouco de flocos de ceral e leite.
      - Preciso lhe contar uma coisa. 
      Enfiou a colherinha no cereal, pensando em qual seria a melhor maneira de iniciar o assunto. Talvez Amy nem se importasse de saber que o Drake viera  casa 
dela na noite anterior.
      , tudo bem! pensou com um estremecimento. Mas e se isso atrapalhar a nossa amizade?
      - Amy, escute bem o que vou lhe dizer; e no fique com raiva no, 't?
      - U, mas por que eu iria ficar com raiva?
      Selena sabia que no fizera nada errado. Fora o Drake que a procurara, e no ela ao rapaz. E no h nada errado em se convidar um amigo para jantar em sua 
casa. Ento, por que ela estava com tanto sentimento de culpa?
      Nesse momento, Wesley voltou, tendo nas mos um pacote que o correio acabara de entregar.
      - Sabe onde mame est? indagou ele.
      - No, respondeu Selena.
      Naquele instante, a porta dos fundos se abriu de sopeto e Kevin entrou correndo e rindo. Dilton veio logo atrs dele, com um revolver de gua na mo.
      - Ei, garotos! gritou Wesley com voz forte. Vo brincar l fora!
      - T bom, papai!
      Os meninos deram a volta em torno da mesa, um correndo atrs do outro, e saram porta afora de novo.
      - No d pra conversar aqui, disse Selena irritada. Vamos l pra cima. Quer saber? Acho que devemos adiar nosso jantar de novo. Aqui em casa vai ser o tempo 
todo assim.
      - No. Vai no, interveio Wesley. Vou sair com o pessoal para jantar numa pizzaria. Podem ficar com a casa s para vocs.
      Amy fez uma expresso tensa.
      - No precisa sair no, Wesley, disse.
      O telefone tocou e o rapaz estendeu a mo para atender ao mesmo tempo que respondia:
      - Preciso sim.
      - Vamos l para o meu quarto, Amy, falou Selena.
      - Selena, disse Wesley quando as duas j se dirigiam para o corredor, telefone pra voc.  o Drake.
      
Captulo Seis
      
      Selena ficou paralisada.
      - Deixe-me falar com ele, adiantou-se Amy, pegando o fone da mo do rapaz. Provavelmente, ele sacou que estou aqui, j que no me encontrou em casa. Oi, Drake!
      Wesley deu um passo para trs, cruzou os braos e ficou assistindo  cena com um ar de gozao.
      - Sexta  noite? disse Amy. Gostaria muito. Tenho de trabalhar at s 9:00h, ento temos de ir a uma sesso mais tarde. O qu? No, aqui  a Amy, continuou 
ela, dando uma olhada para Selena. Com quem voc pensou que estava conversando?
      Selena apertou os lbios e baixou a cabea, pondo-se a fitar os prprios ps, que estavam descalos. Seu corao batia forte, como um tambor.
      - Ela est aqui, falou Amy, estendendo o fone para a amiga.
      Em seguida, ela esticou o brao para pegar sua bolsa, e Selena viu que seus olhos se enchiam de lgrimas.
      - No acredito, Selena! Por que voc no me contou? Pode cancelar o jantar! gritou e saiu apressadamente em direo  porta, quase esbarrando na outra.
      - Drake, falou Selena ao telefone, ligo pra voc depois.
      - No estou em casa, no, disse o rapaz. Estou no trabalho. Quer que eu ligue pra voc?
      - No. Quero dizer, pode ligar.
      Selena escutou os soluos de Amy que j abria a porta da frente. Sentindo-se dividida, a garota disse ao telefone:
      - No sei, no, Drake. Faa o que quiser!
      E com isso desligou e saiu correndo atrs de Amy. A amiga j estava abrindo a porta do seu Volvo.
      - Espere a, Amy!
      A outra fez que no ouviu. Entrou no veculo e bateu a porta. Selena desceu a escadinha correndo e foi em direo  amiga, chegando ao meio-fio no instante 
em que a outra ligava o carro. Amy girou a chave na ignio, mas ele no pegou.
      - Amy, preciso conversar com voc! gritou Selena, batendo no vidro da janela do lado do carona, que estava fechada.
      Outra vez, Amy ignorou-a e girou a chave de novo. Nada. Selena percebeu que a porta no estava trancada e abriu-a rapidamente, antes que a amiga esticasse 
o brao e abaixasse a trava. Selena caiu sentada no banco e bateu a porta. Amy tentou de novo a ignio que no estava pegando.
      - No tenho nada pra conversar com voc, disse num tom de raiva.
      - Amy, insistiu Selena, procurando acalmar-se, no faa isso, Me escute. No  nada do que voc pensou.
      - Ah,  mesmo? indagou ela, virando para a amiga o rosto molhado de lgrimas. Ento o que ?
      -  tudo um mal-entendido. Preciso lhe falar sobre isso.
      - Precisa no. E v embora daqui!
      - No vou embora, no, respondeu Selena com firmeza. Vou ficar aqui sentada at voc resolver me ouvir. No pode sair assim, com raiva. Dessa maneira, no 
se resolve nada. Olha seus pais, por exemplo!
      Nem bem Selena acabara de dizer isso e compreendeu que era a pior coisa que poderia ter dito.
      Ai! Quando  que vou aprender a ficar calada?
      Amy comeou a chorar de novo e abaixou a cabea, apoiando-a no volante. Selena nunca ouvira ningum chorar de forma to incontrolvel.
      - Desculpe, Amy! falou Selena, esticando o brao cautelosamente e colocando a mo no ombro da amiga. O que quero dizer  que ns duas precisamos ter uma conversa.
      A outra continuou chorando muito. O carro estava abafado e Selena abriu a vidraa. Ficou aguardando que a amiga se acalmasse. Por fim, Amy ergueu a cabea 
e disse em voz alta:
      - Todo inundo est me abandonando! Todos que conheo se viraram contra mim!
      - Eu no estou contra voc, disse Selena em tom firme, ressaltando cada palavra.
      - Ah, que  isso? falou Amy, olhando zangada para a amiga, os olhos vermelhos e o rosto molhado. Voc rouba meu namorado e depois vem dizer que no est contra 
mim! Que mentira.
      - No estou mentindo, no, Amy! No roubei seu namorado, no! Quero lhe explicar o que aconteceu.
      - Mas eu no quero ouvir!
      - Amy, insistiu Selena, fazendo um enorme esforo para se acalmar, no faa isso! Me escute! Ontem o Drake levou o carro dele para consertar e depois foi l 
no Mother Bear justamente na hora em que eu estava saindo do servio. Disse que estava apenas fazendo hora pra esperar o carro e a foi ao supermercado comigo. Depois 
o levei de volta  oficina, e o carro ainda no estava pronto. Ento o convidei para jantar na minha casa.
      - Ah, deu tudo certinho! exclamou Amy, enxugando o rosto com o dorso da mo.
      - Escuta! O Ronny tambm veio jantar aqui. Fizemos churrasco e depois jogamos basquete. O Ronny foi levar o Drake em casa, e foi s isso.
      Amy olhou para Selena com ar de dvida e fungou alto.
      - O Ronny tambm veio a?
      - Veio, o Ronny tambm veio. Ele deu carona para o Drake e o levou em casa. Ningum estava roubando o namorado de ningum.
      - E por que ele foi l no seu trabalho, em vez de ir no meu?
      - Bom, uma razo  que a oficina aonde ele levou o carro fica em frente  confeitaria. Alm disso, ele falou que tentou ligar pra voc vrias vezes, mas nunca 
a encontrava em casa.
      - Mentira! Eu estava em casa!
      - Ei, Amy, voc no pode ficar a dizendo que todo mundo est falando mentira, contestou Selena em tom incisivo. Olhe s pra voc! Est toda nervosa por nada!
      - No  por nada, no, replicou ela.
       Amy afastou uma mecha de cabelo do rosto e pegou a bolsa para apanhar um leno de papel. Assoou o nariz e, em seguida ainda chorando, soltou:
      - Meus pais vo se divorciar!
      
      

Captulo Sete
      
      - Tem certeza? indagou Selena. Quero dizer, eles vo mesmo se divorciar ou voc est achando isso por causa da briga que tiveram de manh?
      - Tenho certeza, disse Amy. Uns meses atrs, ouvi os dois discutindo e dizendo que iriam esperar s eu me formar, no ano que vem. Depois iriam vender a casa 
e dividir tudo.
      Selena ficou sem saber o que dizer.
      - Mas do jeito que tudo est indo, acho que eles no vo nem at o fim do ms, continuou Amy.
      - Amy, eu sinto tanto por voc estar passando por isso, falou Selena. Mas que bom que est me contando tudo!
      - Talvez eu no devesse estar lhe contando, disse a outra, dando um suspiro profundo e tremendo muito, mas simplesmente no sei o que fazer.
      - Acho que no h nada que voc possa fazer a no ser orar. Deve orar muito, orar mesmo. Mas so os seus pais que tm de resolver esse problema.
      Selena escutou os passarinhos cantando a plenos pulmes. Havia muitos deles nas rvores do fundo do quintal. Lembrou-se de um pensamento que vira num carto 
de aniversrio. Dizia:
      "O passarinho canta, no porque tenha soluo para tudo, mas porque sabe cantar."
      - Amy, disse ela, vamos procurar esquecer tudo que aconteceu agora de manh, o.k.? No tenho mais o que dizer a voc. Vamos recomear a partir daqui.
      - Voc sempre faz isso, replicou Amy, fitando a amiga direto nos olhos pela primeira vez desde que ela entrara no carro. Sempre consegue se recompor facilmente. 
Voc nunca fica deprimida?
      - Claro que sim. s vezes. Todo mundo fica.
      Amy alisou o cabelo para trs com as duas mos e pegou um elstico que se achava no retrovisor para fazer um rabo-de-valo. Com o cabelo amarrado atrs e os 
olhos limpos, virou para a amiga forando um sorriso.
      - 'T bom. Vamos recomear. Eu consigo superar o fato de que o Drake gosta de voc.
      - Eu no disse que ele gosta de mim.
      - Ele tem interesse em voc, sim, j que ligou para convid-la para ir ao cinema com ele na sexta-feira, caso voc ainda no tenha deduzido isso. Desse jeito, 
fica meio estranho fazermos aquele jantar hoje  noite, com o Drake como meu acompanhante.
      - Estranho por qu?
      - Selena, pense um pouquinho!
      - Eu no disse que iria ao cinema com ele. Nunca dei ao Drake a menor indicao de que estava interessada nele.
      - Mas est, no est? Quero dizer, se eu no tivesse atendido ao telefone, voc teria aceitado o convite dele, no teria?
      Selena fez uma pausa antes de responder.
      - No sei, disse afinal.
      - Ah, Selena, que  isso?! Voc sempre foi sincera comigo! Por que no diz a verdade agora? Eu agento. Pode crer. Depois de tudo que j passei agora de manh, 
agento qualquer coisa.
      Selena soltou um longo suspiro. Levou as mos  nuca e levantou o cabelo, sentindo o suor na pele. O que deveria responder?
      - No sei dizer direito o que estou sentindo, Amy. Simplesmente no sei.
      Soltou o cabelo e olhou para fora. A frente da casa da famlia Jensen parecia uma foto da revista Better Homes and Gardens. A varanda grande, que ia de um 
lado a outro da fachada, estava cheia de xaxins com as samambaias choronas de sua me. Sobre o parapeito do balastre, viam-se diversos vasos em que estavam plantadas 
flores de cores vivas. O quadro todo comunicava muita paz e beleza. Contrastava fortemente com os sentimentos que agitavam a alma de Selena naquele instante.
      - Uma coisa  certa, disse Amy. No poderemos fazer o jantar hoje.
      - Ainda no entendi por qu, retorquiu Selena.
      Amy olhou-a com uma expresso de incredulidade.
      - Pense um pouco, menina, disse. Voc teria dois acompanhantes , e eu, nenhum.
      - E por que no poderia ser um jantar de quatro amigos, sem termos de estar com acompanhantes? sugeriu Selena. Somos amigos, no somos? Por que precisaramos 
estar cada uma com um rapaz? Detesto isso.
      - Detesta por qu? No momento, voc est sendo o centro das atenes dos dois.
      - Ento o que voc quer fazer? indagou Selena suspirando.
      - Nada, s cancelar o jantar. Quero ir embora pra casa, respondeu Amy.
      E aqui ela fez uma pausa. Pegou os culos escuros que estavam sobre o painel e colocou-os no rosto.
      - No. Na realidade, no quero ir pra casa, continuou. Neste exato instante, no sei direito o que quero fazer, s que quero ir embora daqui.
      - No v embora com raiva, no, Amy.
      - No estou com raiva, no.
      Ela girou a chave na ignio e dessa vez o carro pegou.
      - Tem certeza? indagou Selena.
      - Tenho. Depois eu converso com voc, falou Amy.
      - 'T bom. Ento me telefone ou passe aqui mais tarde, estou de folga hoje o dia todo.
      - Vou telefonar. Mas voc liga para os rapazes, o.k.?
      - O.k., repetiu Selena concordando, mas ainda com certa relutncia.
      Abriu a porta do carro e saiu.
      - Voc me liga ento, 't?
      - J disse que vou ligar, replicou Amy, fechando a porta do carona.
      Em seguida, arrancou e partiu rua abaixo "cantando" osi pneus.
      Ela ainda est com raiva, pensou Selena. E no vai telefonar  nada.
      Pisando descala na grama fresca, a garota ficou a olhar o velho Volvo da amiga, que virou a esquina soltando uma fumaa escura. Selena sentiu um vazio interior. 
Parecia que no havia uma soluo fcil para o problema. Aparentemente, no havia nada que pudesse fazer para que tudo se acertasse e a paz voltasse a reinar.
      Por que ser que a vida tem de ser to complicada? continuou ela a pensar. Tenho de ligar para o Drake e dizer que no posso ir ao cinema com ele. Assim Amy 
no ter motivo para ficar com raiva de mim. No; no posso. Na realidade, ele no me convidou para ir ao cinema. Eei achou que estava conversando comigo, mas na 
verdade era com a Amy.
      A Selena teve uma idia.
      E se o Ronny fosse tambm? No; seria muito esquisito, raciocinou ela, pensando ora uma coisa ora outra. No  no. Ronny  apenas meu amigo. Ou ser que no?
       Aquela vozinha insistente na mente da garota comeou a incomod-la, dando-lhe a impresso de que ia enlouquecer. Tinh dvidas e indagaes sobre ela mesma 
e sobre todo mundo.
      Nesse instante, um caminho ba veio descendo a rua e parou bem no ponto onde o carro de Amy estivera estacionado. Aquilo interrompeu seu fluxo de pensamento. 
Na lateral do veculo, estavam gravados em letras grandes os seguintes dizeres: "Fraldas Descartveis Joy". O motorista do veculo devia estar meio perdido. Ali 
por perto, no havia ningum que tivesse um beb.
      Virou-se para entrar em casa, mas em seguida ouviu uma voz cham-la.
      - Oi, Selena! Espere a!
      Voltou-se rapidamente e quase caiu na risada ao ver quem estava descendo da boleia do caminho. Era Drake, seu amigo alto e simptico. Estava vestido com um 
short e uma camisa branca, de manga curta. Logo acima do bolsinho da camisa estava impresso um logotipo com as palavras: "Fraldas Descartveis Joy".
      
      

Captulo Oito
      
      - O que estava acontecendo aqui na hora que liguei? A Amy ainda est a? indagou Drake.
      Ele tirou os culos escuros e olhou para a varanda por sobre a cabea de Selena.
      - Ela acabou de sair. Voc faz entrega de fraldas?
      O rapaz fez que sim.
      -  a firma do meu pai, explicou.
      - No sabia.
      Ele fitou-a com um sorriso significativo.
      -  que no saio por a contando isso, n?! Mas, me diga. O que aconteceu com a Amy?
      - Ns estvamos combinando tudo para o jantar de hoje, mas agora ele est cancelado.
      - Por qu? indagou ele.
      - Bom, principiou Selena, deixe-me fazer uma pergunta. Voc est interessado em sair com ela?
      - No.
      - Pois ela est interessada em sair com voc.
      - E da?
      - E da?!
      - . E da? Isso significa que sou obrigado a sair com ela?
      - Drake! exclamou Selena, pondo as mos nos quadris e abanando a cabea. Voc no entende nada, n? Voc a magoou muito!
      - Eu a magoei? Como?
      - Quando ela atendeu, pensou que voc a estava convidando para sair. No est vendo? Ela disse que sim, e depois voc falou que queria conversar comigo. Ela 
gosta de voc, Drake. Ficou magoada ao saber que voc estava querendo me convidar para sair.
      - E tenho culpa se ela pegou o telefone e se eu pensei que era voc?
      - Ela no pretendia engan-lo, no. Voc est dando a entender que ns armamos tudo isso para deix-lo confuso. 
      Drake correu os dedos pelo cabelo escuro. Sua expresso era de quem no sabia o que pensar.
      - , deu certo, disse. Estou muito confuso mesmo.
      - E voc acha que  tudo culpa nossa? indagou Selena.
      - No estou dizendo que nada  culpa de ningum, replicou ele em tom irritado.
      Selena cruzou os braos e mordeu os lbios para no dizer nada de que depois viesse a se arrepender.
      - Olhe aqui, Selena, tenho de ir trabalhar. No quer vir comigo fazer essas entregas, para podermos conversar?
      - Estou descala.
      - Ento calce um sapato.
      A garota hesitou. No estava querendo muito sair na companhia de Drake. E no era por causa das fraldas, no. Era por receio de Amy ficar chateada de novo, 
como ficara pelo fato de ele ter jantado em sua casa.
      - No sei, respondeu ela pensativa.
      - 'T bom! exclamou o rapaz meio irritado. Preciso ir. Depois falo com voc.
      E assim dizendo, saiu correndo para o veculo, saltou na cabine e arrancou.
      - Ah, os homens! resmungou Selena.
      Virou-se para entrar, mas nesse instante outro veiculo se aproximou, vindo em direo  sua casa. A garota ergueu os braos com um gesto de resignao, ao 
perceber que era a caminhonete branca de Ronny. Ele parou junto ao meio-fio.
      - Que  que est acontecendo hoje, afinal? murmurou.
      Ronny deslizou no banco, ficando junto  janela do passageiro, e abaixou a vidraa.
      - Oi! disse ele. Como voc est?
      - Nem pergunte! soltou Selena mal-humorada.
      - O.k., replicou ele em tom cordato. Vamos comear de novo. Eu estava me dirigindo para a Rua 52, onde vou aparar um gramado. Vi voc parada aqui e pensei 
em vir dizer um "oi", explicou ele, jogando para trs o cabelo louro e liso, e dando um sorriso amplo.
      Selena no riu.
      - Est com problemas, hein? continuou ele.
      - Estou.
      - Aquele caminho que estava aqui era o do Drake?
      - Era.
      Com certa cautela, Ronny arriscou-se a fazer outra pergunta.
      - Est tudo certo com relao ao nosso jantar de hoje?
      - No, est cancelado.
      - U, por qu?
      - Nem queira saber! Est tudo uma enorme confuso.
      - Posso ajudar de alguma forma?
      - No!
      Percebendo que a garota no estava com muita vontade de conversar, Ronny deu um sorriso e disse:
      - Bom, espero que as coisas melhorem pra voc.
      - Eu tambm.
      - Ah, e por falar nisso, continuou o rapaz, convidei o Drake para ir ao passeio conosco.
      - Convidou?! Oh! Ronny!
      - O qu?
      Selena levou as duas mos  cabea, agarrou um punhado de cabelo e deu um leve puxo.
      - Ai! exclamou. Acho que vou acabar ficando louca!
      Ronny deu de ombros.
      - Fiz algo errado? indagou ele.
      - Ah, deixe pra l! Agora tenho de telefonar para a Amy e explicar tudo de novo.
      - , acho melhor eu ir embora, falou Ronny meio sem graa.
      - Voc e o resto todo, resmungou Selena.
      Ficou a olhar o rapaz que partia seguindo o mesmo caminho de Amy e Drake. A garota sentiu que precisava sentar um pouco e pensar bem no que estava lhe acontecendo. 
Subiu a escada de dois em dois degraus e sentou-se no balano da varanda, deitando-se sobre as almofadas macias. Apoiou o brao na testa e fechou os olhos, pondo-se 
a analisar tudo que lhe sucedera. 
      Amy estava muito nervosa. Contudo isso talvez se devesse ao fato de que estava transtornada por causa do divrcio dos pais. Na verdade, era possvel que o 
Drake nem tivesse nada a ver com o seu nervosismo. Se fosse em outra ocasio, Amy talvez no se importasse de Drake ter vindo visit-la. No; isso no era verdade. 
A amiga se importaria sim, em qualquer ocasio. Ela gostava do rapaz. Selena, porm, no tinha culpa de nada.
      O problema todo era o Drake. Por que ele vinha se mostrando to atencioso com ela? Por que parecia interessado? Recordou o que sentira no dia anterior, quando 
o rapaz limpara algo em seu rosto. Levou a mo ao lugar que ele tocara, revivendo a sensao que tivera naquele momento. Nunca experimentara nada semelhante antes 
disso - um certo constrangimento e ao mesmo tempo uma sensao agradvel.
      Eu devia ter ido com ele fazer as entregas, pensou. Agora ele no vai me convidar para ir ao cinema na sexta-feira. Aqui ela parou. Que  que estou pensando 
afinal? Mesmo que ele me convide, no posso aceitar. No vou fazer isso com a Amy. Nem com o Ronny. Com o Ronny? Por que estou preocupada com o Ronny? Ele no se 
importaria se eu sasse com o Drake. Ou ser que se importaria?
      E mais uma vez ouviu aquela vozinha insistente, que a vinha atormentando havia alguns dias: Tem certeza de que est agindo certo?
      Sentou-se e jogou o cabelo para trs, na esperana de afastar o pensamento incmodo e acalmar as emoes agitadas. No adiantou. Levantou-se e entrou em casa, 
consciente de que os sentimentos continuavam confusos. Foi direto para a cozinha, procurando algo para comer. Na verdade, queria algo doce. Pela primeira vez, compreendeu 
por que, vez por outra, Tnia ficava "caando" alimentos doces. O chocolate  o nico "remdio" que cura desconforto emocional.
      O melhor doce que encontrou foi uns marshmallows j meio ressecados e um pouquinho de calda de chocolate. Colocou um pouco da calda numa tigela e aqueceu-a 
no forno de microondas. Pegou um palito, os marshmallows e se sentou. Estava pronto o seu fondue.
      Instantes depois, a me entrava na cozinha.
      - Selena! exclamou ela.  isso que voc vai almoar?
      - Hum-hum, replicou a garota, sentindo o doce grudento derreter-se na boca.
      - O Wesley falou que voc e a Amy querem fazer um jantar aqui hoje  noite.
      Selena abanou a cabea.
      - No. J cancelamos.
      - Quando?
      - Agora de manh, quando a Amy esteve aqui.
      - Ela veio aqui mais cedo? indagou a me. Acabei de conversar com ela no telefone faz uns dez minutos. Eu lhe disse que voc havia sado com o Drake.
      Selena deixou cair o marshmallow, com o palito e tudo, dentro da vasilha de calda.
      - No! exclamou a garota.
      A me fez que sim e experimentou um dos marshmallows secos da filha.
      - Eu estava saindo do chuveiro e o Kevin me disse que voc havia sado com o Drake.
      
      

Captulo Nove
      
      Selena compreendeu que o irmo devia ter olhado pela janela na hora em que ela estivera na calada, conversando com o rapaz. Agora, s o que faltava era a 
Amy pensar que assim que, ela fora embora, Selena sara com o Drake. A garota correu para o escritrio e discou para a amiga.
      - Sou eu, Amy! disse. No desligue.
      Selena sentou-se na sua poltrona predileta e ficou a olhar para o teto irritada.
      - Achei que voc tinha sado com o Drake, replicou a outra em tom de acusao.
      - Eu estava l fora conversando com o Drake, mas no "sa" com ele, no. Tentei explicar para ele que voc se sentiu magoada com a atitude dele.
      - Voc no disse isso, disse? falou a outra, com uma ponta de irritao na voz.
      - Disse, sim. Queria que nosso amigo entendesse por que voc ficou chateada quando percebeu que ele estava me convidando para sair.
      - Selena, quer fazer o favor de no se intrometer em minha vida?
      - Ei, o que h com voc? Estou do seu lado, amiga!
      - No est, no, se voc falou para o Drake que ele me magoou! Isso me deixa muito sem graa. Est mais do que claro que ele no tem interesse por mim. No 
sou to burra assim para continuar interessada nele.
      Selena ergueu-se, pondo-se a caminhar pelo escritrio, com a mo na testa, esticando o fio espiralado do telefone.
      - No estou entendendo, disse. Estava tentando ajud-la.
      - Pois no precisa me ajudar, no, replicou Amy friamente. Est tudo acabado.
      - O que est acabado?
      - Meu inexistente romance com o Drake. Ele  todo seu. E no precisa ter medo, no. Pode "agarr-lo". E na prxima vez em que conversar com ele, nem cite meu 
nome. Tenho certeza de que ele vai te chamar pra sair.
      - Como  que voc pode parar de gostar dele assim, de repente?
      - Pra se ter um romance, Selena,  preciso duas pessoas quererem, explicou Amy. Nesse caso, com o Drake, o interesse foi s meu.  que eu tinha esperana de 
que a situao mudasse. Mas no mudou.
      - No sei se eu teria coragem de sair com o Drake sabendo que voc gosta dele.
      - Claro que teria, disse Amy. Alis, acho que voc deve sair.
      Selena soltou um suspirou fundo e deixou-se cair contra a parede, encostando-se nela.
      - No estou compreendendo. Voc acha mesmo que devo sair com o Drake?
      Amy suspirou.
      - Essa questo de namorar  novidade pra voc, Selena. Escute o que estou dizendo. Quando um cara como o Drake convida a gente pra sair com ele,  melhor aceitar.
      - Amy, sua amizade  mais importante pra mim do que namorar o Drake ou qualquer outro cara.
      - Ei, Selena! Acorda, menina! Ns j somos grandinhas. Quando um rapaz nos convida pra sair, temos de aceitar. No tem essa de recusar s porque algum pode 
ficar magoado!  um belo gesto, mas no quero que nenhuma amiga minha rojeite um namorado em potencial s por minha causa.
      - Mas estou sendo sincera, protestou Selena.
      - Sei disso, interveio Amy. Voc  legal demais! E por isso que todo mundo, inclusive o Drake, gosta de voc. E  por essa razo tambm que no consigo ficar 
com raiva de voc por muito tempo.
      - No est mais com raiva, no?
      Amy fez silncio por uns instantes e depois respondeu calmamente:
      - J estou legal com relao a essa questo. Estou mesmo. Acho que voc deve sair com Drake. Tenho certeza de que ele vai convid-la de novo.
      Selena queria poder ver o rosto da amiga, para no ter nenhuma dvida de que ela estava sendo sincera.
       tardinha, Selena ainda se sentia meio inquieta a respeita da amiga e resolveu dar um passeio. Wesley ia fazer uma caminhada com o Brutus at o Parque Monte 
Tabor. Iria junto com ele. Talvez estivesse na hora de aceitar o oferecimento do irmo, que lhe dissera que, se quisesse, poderia pedir-lhe conselhos. Ele provavelmente 
iria gostar dessa oportunidade de passar a ela todo o seu conhecimento do assunto.
      Eles colocaram a coleira no co e foram andando. No instante em que saam ao passeio, pela lateral da casa, avistaram Drake que se achava  porta de entrada.
      - Oi, Drake! gritou Wesley. Estamos aqui!
      Selena sentiu o corao bater fone.
      - Como vai? indagou Wesley.
      - Muito bem, replicou o rapaz. Esto saindo para dar um passeio?
      Wesley deu uma espiada para a irm e em seguida disse:
      - Selena estava precisando de companhia. Quer ir no meu lugar?
      - Claro, respondeu o rapaz.
      Parecia que ele acabara de sair do chuveiro. O cabelo castanho-escuro e cheio estava penteado para trs. Usava uma camiseta azul e uma cala jeans, que contrastavam 
fortemente com o uniforme da empresa do pai, com que ele estava vestido pela manh.
      Weslwy entregou a correia da coleira para Selena e disse-lhe:
      - Traga esse grandalho de volta at meia-noite, ouviu?
      - Qual dos dois? resmungou ela baixinho.
      - , eu escutei, viu?! falou Drake, inclinando-se e correndo os dedos no plo do cachorro. Pra onde vamos?
      - Para a esquerda, se quisermos ir ao Parque.
      - Pra mim, est bom.
      Brutus soltou um latido de impacincia e foi andando. Selena deu um puxo na correia.
      - Para o outro lado, Brutus. Para a esquerda.
      - Ele sabe a diferena entre esquerda e direita? Indagou Drake.
      - No, mas estamos ensinando.
      Caminharam em silncio mais ou menos um quarteiro, e afinal o rapaz disse:
      - Eu queria lhe contar "o meu lado", no caso da Amy. Posso?
      - Claro.
      - No sei o que ela lhe contou, mas eu vejo os fatos da seguinte maneira. Ns fomos a um jogo do Blazers; foi uma turma grande. Talvez voc ainda se lembre. 
Ns combinamos l na escola, na hora do almoo. Amy disse que precisava de uma carona. Resolvi atender. A ficou parecendo que iramos ter um encontro. Eu entendi 
que estava apenas dando uma carona para uma amiga. Agora, no sei o que ela pensou.
      Realmente, na ocasio, Amy tinha ficado muito empolgada. Selena lembrava-se de que havia gozado dela, dizendo que ela forara o Drake a convid-la para sarem 
juntos. A amiga at armara o plano de fazerem aquele jantar para os quatro, para estimular um pouco mais o interesse do Drake.
      Agora Selena compreendia que o rapaz nunca pensara o mesmo em relao  colega. Fora esta que tivera a iniciativa de tudo.
      - Eu at entendo, continuou Drake, que voc queira defender a Amy. Mas da a me ver como o vilo da histria, ah, isso no  justo.
      - , talvez eu tenha tirado concluses apressadas, reconheceu Selena.
      - Apressadas? repetiu o rapaz. Superapressadas!
      A garota deu uma risada.
      - 'T bom, tirei concluses superapressadas. O que sei  que Amy ficou muito magoada quando atendeu ao telefone e percebeu que voc queria falar comigo, e 
no com ela.
      - Ei, espere a! interveio o rapaz. Como  que eu ia saber que ela estava na sua casa naquela hora? E obviamente no ia adivinhar que foi ela que atendeu ao 
telefone. Voc est querendo dizer que, se uma garota est interessada em mim, eu no tenho o direito de convidar outra para sair comigo?
      Selena compreendeu que ele tinha razo. Contudo Amy era sua amiga. Era uma tima amiga, e no momento no estava com muitas amizades, no.
      - Suponhamos que eu no queira sair com ela, continuou o rapaz. Ser que no tenho liberdade de tomar outras decises? Ser que tenho de ficar fechado em casa, 
s para no mago-la?
      Os dois chegaram a uma esquina muito movimentada, Brutus deu um arranco, querendo descer da calada para a rua.
      - Espere! gritou Selena. Vem vindo um carro!
      Deu um puxo na correia para conter o co e, de repente, sentiu a mo quente do rapaz sobre a sua.
      - D aqui, disse ele. Deixe-me lev-lo.
      Ele pegou a correia e em seguida dirigiu-se ao cachorro.
      - Vamos l, garoto! Espere um pouco!
      O corao de Selena, que j batia forte, agora disparou. Estava vendo Drake por um novo ngulo. Ele tinha razo. No era justo de sua parte julg-lo com base 
apenas na viso de Amy a respeito do relacionamento dos dois. Ele tambm tinha o direito de expor sua opinio sobre a situao.
      - Olhe aqui, Selena, quero ser muito sincero com voc, prosseguiu o rapaz. Eu no namoro muito. O ano passado resolvi que iria ter muitos amigos e amigas, 
e no ficar namorando firme com ningum.
      Selena sabia que isso era verdade. Drake era amigo de todo mundo, e alguns at diziam que ele era namorador, porque saa com vrias moas e uma vez s com 
cada uma.
      - Mas tenho pensado muito numa coisa. Queria que voc sasse comigo.
      - Ir ao cinema na sexta-feira?
      - , mas no s nesse dia, explicou ele. Quero sair com voc vrias vezes durante as frias, para poder conhec-la melhor.
      Selena notou que a testa dele comeou a ficar molhada de suor. Drake estava conversando em voz calma e tranqila, mas ela sentiu que ele devia estar nervoso, 
como ela tambm estava.
      Bom... refletiu ela, ele tinha razo com relao a Amy. E  um rapaz maravilhoso!
      - O.k., respondeu.
      Ih, que frieza! pensou ela, recriminando-se. Ser que no poderia demonstrar um pouco mais de estusismo, Selena?
      Em seguida, antes de parar para pensar melhor, soltou o que lhe viera ao pensamento:
      - Por que eu?
      
      

Captulo Dez
      
      - Por que voc? repetiu Drake rindo.
      - . Estou perguntando isso porque voc pode sair com qualquer garota que quiser. Por que ento quis sair comigo?
      Drake coou a nuca.
      - Sei no, respondeu. Precisa ter um motivo? No basta dizer que gosto de voc e quero estar em sua companhia?
      Estavam entrando no parque, andando numa estradinha ladeada de rvores. Selena aproximou-se mais de Drake.
      - Acho que sim, replicou ela. , creio que estou com a cabea meio nas nuvens.  s isso. Adoro este parque. Essa quantidade de rvore d uma sensao de aconchego, 
n? Parece um esconderijo secreto.
      -  muito bonito mesmo, concordou o rapaz.
      O caminho virou uma subida, e os dois pararam de conversar, mas continuaram no mesmo passo apressado. Da a pouco comeavam a ofegar. Selena teve de se esforar 
para acompanhar as passadas largas do rapaz. Subiram o tempo todo em silncio. S ao chegar no alto foi que voltaram a falar. Alis, l de cima, tinha-se uma belssima 
vista da cidade. O sol quente de vero j estava se pondo no ocidente, lanando reflexos rosa-pssego nas orlas das nuvens.
      - Que lindo! murmurou Selena.
      Num gesto natural, Drake passou o brao em torno do ombro dela, mantendo a trela de Brutus firmemente segura na mo direita.
      - Lindo mesmo! repetiu ele.
      Que maravilha! pensou Selena. Adoro essa sensao do brao dele no meu ombro. Ser que ele vai me beijar? Espere a! Que  que estou pensando? Por que ele 
iria me beijar? Nem nos conhecemos direito!
      Era a primeira vez que Selena tinha sensaes to fortes com relao a um rapaz. Tudo estava acontecendo muito depressa. E ao mesmo tempo que gostava do embalo 
emocional, sentia tambm um certo perigo no ar. Lembrava algo que sentira quando era pequena e dera uma volta na "montanha-russa". Adorara a sensao da queda, na 
hora da descida, mas mesmo assim ficara ansiosa, pelo fato de no estar mais no controle da situao.
      Achava-se sob a influncia de algo mais forte que ela. Com a onda de emoo, viera tambm o medo de fazer algo de que mais tarde pudesse arrepender-se. No 
caso da "montanha russa", tivera medo de vomitar  vista de todo mundo, to logo sasse do brinquedo. Naquele momento com Drake, porm, no sabia direito o que temia. 
Contudo tinha perfeita conscincia de que, em sua mente, um sistema de alarme entrara em funcionamento.
      - Acho melhor voltarmos, disse ela. Esse carinha aqui vai precisar beber gua j, j.
      - L atrs tem um bebedouro, interveio Drake. Ser que ele pode beber l?
      - Claro.
      Viraram-se para retornar. O rapaz manteve o brao no ombro dela. Ao que parecia, ele achava aquele gesto perfeitamente normal. Selena pensou que seria bom 
se ele no percebesse, por meio do contato com sua pele, que o corao dela estava batendo apressado. Ela j comeava at a sentir calor, apesar de estar de short 
e camiseta, e de a tarde no estar muito quente.
      Drake dirigiu o cachorro at o bebedouro e tirou o brao do ombro da garota, enquanto Brutus lambia a gua fresca. Imediatamente Selena sentiu falta da sensao 
de segurana e aconchego que o brao do rapaz lhe proporcionava.
      Depois que o co bebeu bastante, saiu caminhando em direo a um banco que havia perto de um roseiral florido, arrastando consigo Drake e Selena. Ali ele se 
deitou.
      - Parece que o Brutus quer descansar um pouco antes de voltar, comentou Drake. Alis, no  m idia.
      Assim dizendo, ele se sentou no banco. Selena acomodou-se ao lado dele, no perto demais, nem muito longe.
      O cu ainda se achava iluminado com os tons claros que coloriam as nuvens ao poente. S comearia a escurecer da a meia hora aproximadamente. O parque estava 
agitado, cheio de gente. Alguns andavam de bicicleta. Crianas brincavam nas gangorras. Outros estavam encerrando um piquenique, terminando o churrasco. Selena se 
sentiu dominada por enorme contentamento.
      - Que bom que conversamos e acertamos tudo! disse.
      Teve vontade de explicar para Drake que Amy lhe dera liberdade para sair com ele. A, porm, pensou que se mencionasse o nome da amiga poderia dizer algo errado, 
e a colega iria ficar com raiva dela de novo.
      - , respondeu ele meio gozando, eu sabia que voc iria enxergar tudo com clareza.
      Drake tinha a mania de erguer bem o queixo quando estava buscando algo que desejava. Selena havia notado isso antes, na escola, num dia em que ele lhe pedira 
uns biscoitos. E naquele mento tambm, ele estava com o queixo bem erguido, numa atitude de firme determinao.
      Esse cara sempre sabe direitinho o que quer; e vai atrs, pensou Selena. Mas ainda parece mentira que  comigo que ele quer sair. Adoro a simplicidade dele! 
Apesar de ser forte e bonito, no se acanha de dirigir um caminho, fazendo entrega de fraldas pela cidade. Ele  perfeito pra mim!
      - Essas frias vo ser maravilhosas! murmurou o rapaz, passando o brao nos ombros de Selena novamente.
      A garota aproximou-se dele um pouquinho mais.
      - Minha me j me disse isso vrias vezes, respondeu ela. Mas com tudo que aconteceu hoje de manh, achei que no conseguiria chegar ao fim do dia, quanto 
mais das frias.
      - Pois eu acho que chega, sim! exclamou Drake sorrindo.
      E pela cabea de Selena comearam a passar imagens vigorosas do que poderia acontecer-lhe nas frias. Viu Drake andando ao seu lado, na caminhada ecolgica 
que fariam. Viu-o convidando-a para jantar fora, comprando doces no cinema. Imaginou-o sentado junto dela no balano da varanda e, por fim, beijando-a. Seria seu 
primeiro beijo.
      
      

Captulo Onze
      
      J era quase l:00h da madrugada, e Selena continuava virando e revirando na cama. No conseguia dormir. As horas que passara com Drake tinham-na deixado com 
as emoes agitadas. Agora, ali no silncio do quarto, ficou a reviver cada sensao que experimentara, at esgot-las completamente.
      Eles haviam voltado do parque de mos dadas. E quando chegaram em casa, os pais dela estavam sentados na varanda. Selena e Drake levaram Brutus para o quintal 
dos fundos e em seguida, vieram para a frente da casa e ficaram a conversar com o pai e a me dela. A certa altura, o rapaz perguntou ao pai de Selena se este consentiria 
em que a filha fosse com ele ao cinema na sexta-feira  noite. Com isso, ganhou muitos pontos no conceito do Sr. Harold.
      O pai disse que sim, e Selena percebeu que sua me tinha nos lbios um leve sorriso de satisfao. Afinal, quando Drake foi embora, eles ficaram a olh-lo 
da varanda, acenando em despedida.
      No houve beijo. Contudo Selena no quisera mesmo que ele a beijasse, assim de repente, j na primeira vez em que se encontravam. Ainda teriam as frias todas 
pela frente.
      Logo em seguida, ela viera deitar-se e ficara olhando para o teto. Fazia mais de trs horas que estava ali deitada, chutando as cobertas. Sua mente simplesmente 
no conseguia aquietar-se.
      Seu nervosismo se devia, em parte, a uma preocupao com Amy. O que diria para a amiga no dia seguinte? Ser que a colega no se incomodaria mesmo, caso ela 
sasse com Drake? E o que aconteceria quando fossem quele passeio, em que tanto o rapaz como a amiga estariam presentes? Ser que deveria avisar Amy, para que esta 
no se surpreendesse ao ver Drake l?
      E quanto ao Ronny? Ser que ele continuaria a frequentar sua casa normalmente, depois de saber que ela e Drake estavam saindo juntos? Selena sorriu no quarto 
silencioso e s escuras, ao comparar os dois rapazes. As mos de Drake no eram speras como as do outro nem estavam sempre cheirando a grama. Tnia ficaria muito 
admirada quando soubesse que ela e Drake estavam tendo um namorico. Selena olhou para a cama vazia da irm. Se Tnia estivesse ali, de manh ela poderia contar-lhe 
todos os planos que estava fazendo para as frias.
      Selena nunca imaginara que aquele dia iria terminar do jeito que acabou. Comeara, cedo de manh, com a Amy chorando na cozinha e encerrara de outra maneira 
bem diferente: ela e Drake contemplando o pr-do-sol juntos. A garota sorriu de novo. Era um dia para guardar na memria para sempre.
      Ao pensar nisso, sobreveio-lhe uma sensao de contentamento. E com isso, finalmente, adormeceu.
      Na manh seguinte, Selena se aprontou cuidadosamente, pois agora tudo era diferente. Puxou o cabelo todo para trs e amarrou num rabo-de-cavalo. Pegou os brincos 
mais novos, que eram os seus prediletos do momento. Nesse dia, achou muito sem graa as roupas que tinha no guarda-roupa: shorts e camisetas. Deu uma busca no fundo 
do armrio  procura de algo que a deixasse com um ar de leveza interior, que era como se sentia. A ento avistou o que queria - o vestido longo e fino, que Tnia 
chamara de "roupa da vov".
      Vestiu-o sorrindo, ao pensar em como era bom que Tnia no estivesse ali para ficar criticando suas roupas. Selena era uma pessoa de esprito livre e sempre 
dizia que a maneira como se vestia constitua uma expresso de sua arte de viver. A irm s vezes fazia uma careta e replicava:
      "Ah, e  uma expresso mesmo!"
      Colocou no pescoo um colar que consistia de uma longa fita preta, com um pingente prateado em forma de pomba. Com isso acabou de se arrumar. A garota se contemplou 
no espelho oval que havia sobre a velha cmoda e sorriu de novo, satisfeita. O interesse de Drake por ela fortalecera bastante sua autoconfiana. Era muito gostoso 
sentir-se admirada, querida. Havia j muito tempo que no se sentia assim. A sensao era maravilhosa!
      No trabalho, ningum nem nada conseguiu alterar seu bom humor. Sorriu o tempo todo enquanto servia os pezinhos de canela ou fazia os sorvetes de iogurte na 
mquina. E continuava alegre,  noite, quando foi ajudar a me a cuidar das vasilhas. Logo depois, saiu para ir  reunio dos jovens, na igreja.
      Na ocasio em que a famlia de Selena se mudara para Portland, haviam visitado diversas igrejas. Durante algum tempo, frequentaram uma que ficava em Washington, 
pois Tnia quisera participar do grupo de jovens que havia ali. Contudo tinham acabado passando para uma outra, que ficava bem mais perto de casa. Por coincidncia, 
era a igreja aonde o Ronny ia desde pequeno. Os pais do rapaz participavam do mesmo grupo de estudo bblico a que iam os de Selena. Aps algum tempo, a Amy tambm 
comeou a freqentar essa igreja, j que sua famlia no ia a nenhuma. Quanto ao Drake, Selena no sabia a posio dele nessa questo.
      Selena chegou cedo. Correu os olhos pelo estacionamento,  procura do carro de Drake. No estava l. O Volvo de Amy tambm no. Por outro lado, viu a caminhonete 
do Ronny numa das primeiras vagas. Ele, geralmente, chegava bem cedo. Ela se indagou se Drake teria vindo com Ronny. Entrou no salo da mocidade e correu os olhos 
em volta, para ver se Drake j se encontrava ali.
      Ronny avistou-a e acenou. Fazia j algumas semanas que ele estava tentando organizar um grupo musical para tocar na igreja. Ao que parecia, finalmente estavam 
com tudo ajustado. No centro, encontrava-se um colega da escola, um rapaz de nome Tre, que naquele momento, afinava o violo. Ronny arrumou um dos microfones e da 
a pouco o ambiente estava vibrando com msicas alegres.
      O som deles estava timo, mas Selena no prestava muita ateno. Ficava olhando nervosamente para a porta, na expectativa de ver o Drake ou a Amy chegarem. 
A garota acabou no vindo.
      Drake chegou alguns minutos atrasado e foi logo para perto de Selena. Ela se sentia muito feliz de estar ao lado dele. Tinha conscincia dos olhares que vrias 
garotas lhe dirigiam e da maneira como fitavam o rapaz.
      - Vamos sentar? disse Drake, depois que ela o apresentou a todos os seus conhecidos.
      Foram acomodar-se num banco que ficava quase na frente. Naquele instante, Shane, o lder dos jovens, pediu a todos que se sentassem. Era um homem musculoso 
e de altura mediana. Tinha uma voz possante e suas energias pareciam inesgotveis.
      - Oi, pessoal! disse ele. Boa-noite!  uma alegria ver todos vocs aqui. Vamos comear.
      Tiveram um perodo de louvor, de uns vinte minutos, ao som do grupo do Ronny. Selena teve a impresso de que o salo estava mais cheio do que nas outras vezes. 
No havia dvida de que aquela msica era um grande atrativo e aumentava bem a freqncia. E os cnticos estavam mais cheios de vida. Afinal, todos se sentaram aps 
o ltimo hino.
      - Um prazer a curto prazo traz sofrimento a longo prazo, disse Shane assim que todos estavam acomodados. Esse  o nosso assunto para hoje. Gostaria que vocs 
se dividissem em grupos de trs ou quatro, para conversarem sobre o que isso significa para vocs.
      Selena virou-se para Drake.
      - Significa exatamente o que est dizendo, falou o rapaz. Algumas coisas que fazemos nos so agradveis no momento, mas depois trazem conseqncias dolorosas.
      - . comer chocolate, por exemplo, disse Jana, uma garota que estava sentada do outro lado do Drake. 
      Ela se aproximara dos dois, formando um grupo com eles.
      - Enquanto estamos comendo, continuou ela, sentimos enorme satisfao mas, a longo prazo, ele  prejudicial para o corpo.
      Jana tinha cabelo louro bem curto, acima das orelhas. Era bastante sorridente e tinha um nariz pequeno e redondo. Era mais baixa que Selena e um pouco rechonchuda.
      Alguns minutos depois, Shane voltou a assumir a direo.
      - Algum quer citar algum exemplo? indagou. Vejamos este grupo aqui, concluiu, apontando na direo de Selena.
      - Chocolate! gritou Jana.
      - timo! Boa resposta! O chocolate pode dar prazer a curto prazo, mas a longo prazo produz sofrimento. Muito bom! Mais algum grupo quer falar?
      Outros jovens foram expressando sua opinio, mas Selena ficou pensando em Amy.
      Eu devia ter ligado para ela, em vez de esperar que ela viria, pensou, recriminando-se. Devia ter telefonado para dizer-lhe que o Drake viria e que, mais ou 
menos, ficaria comigo. Bom, espero que Amy aparea para a reunio que vamos ter depois, e eu possa explicar tudo para ela.
      - Est bem, disse Shane, fazendo com que a ateno de todos voltasse a convergir-se nele. Vamos ler um versculo que pode nos ensinar muito com relao a essa 
questo. Quem est com a Bblia a deve sublinhar esse texto. E quem no trouxe, lembre-se de trazer na prxima reunio, o.k.? E se algum ainda no possui uma Bblia, 
fale comigo que posso lhe arranjar uma.
      Todos se remexeram para pegar a Bblia e um rumor tomou conta do salo. Selena havia esquecido de trazer a sua e ficou um pouco sentida. No tinha o costume 
de esquec-la. Nessa noite, porm, estivera to ansiosa que sara correndo e no a pegara. Contudo iria escutar com muita ateno e procurar fixar na mente o versculo, 
para marc-lo quando chegasse em casa.
      Na verdade, fazia j alguns dias que no lia a Bblia nem orava. Era fcil achar uma explicao para isso. Tinha entrado em frias e as atividades dirias 
haviam mudado. Sua vida estava muito agitada nesses dias. Sabia que precisava muito observar aquele momento dirio de comunho com Deus, para se manter no "caminho 
certo". Em pensamento, fez o propsito diante de Deus de ler alguns captulos a mais nessa noite.
      - Todos j pegaram a Bblia? continuou Shane. O versculo  Hebreus 12.11. Diz o seguinte: "Toda disciplina, com efeito, no momento no parece ser motivo de 
alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacfico aos que tm sido por ela exercitados, fruto de justia."
      A seguir, ele explicou o que a disciplina significa e como o crente precisa receber correo para viver em paz consigo mesmo e com Deus.
      Selena fez fora para acompanhar a palestra, mas ficava toda hora desciando a ateno. Imaginava se Drake iria segurar sua mo ou passar o brao pelo seu ombro 
enquanto Shane pregava. No sabia ao certo se queria essa ateno do rapaz ou no. Infelizmente, porm, como estava naquela expectativa - que, alis, no se realizou, 
deixando-a frustrada - no escutou a mensagem. Entretanto guardou a referncia do versculo e tinh inteno de marc-lo em sua Bblia quando chegasse em casa.
      Afinal, Shane encerrou a reunio com uma orao e, a seguir, Ronny e sua turma tocaram mais algumas msicas. Todos os que iriam participar do acampamento e 
da caminhada ecolgica deveriam reunir-se numa sala adjacente. Amy no apareceu, o que deixou Selena ainda mais preocupada.
      Shane distribuiu uma lista com tudo que deveriam levar no passeio e uma ficha de autorizao que teriam de trazer de volta, assinada pelos pais, at na segunda-feira 
pela manh, quando partiriam.
      Fazia j uns dez minutos que estavam reunidos conversando, quando entrou outra pessoa; era Wesley. Shane olhou para ele com expresso de alvio e disse:
      - Que bom que o Wesley chegou. Gente, este aqui  o Wesley Jensen. Ele vai estar no comando do grupo nesse passeio. Ele  entendido em caminhadas pela mata. 
Se algum tiver alguma pergunta, pode falar com ele.
      Selena fitou o irmo com expresso de surpresa. Ele dirigiu-lhe uma piscadela e comeou indagando se todos tinham botas prprias para caminhada.
      A garota sorriu meio preocupada. Tendo Wesley como o lder do grupo e Drake como namorado, aquele passeio, sem dvida alguma, seria bastante incomum. Ainda 
mais com a tenso que estava experimentando em relao a Ronny e Amy.
      
      

Captulo Doze
      
      Assim que Selena entrou em casa, ligou para Amy, mas a ligao caiu na secretria eletrnica. No dia seguinte, tentou de novo; e novamente s contactou a mquina. 
Afinal, impaciente, pegou o carro e foi  casa da amiga. Foi a prpria Amy quem atendeu  porta.
      - Tentei telefonar pra voc, explicou. Por que no atendeu?
      - Estava tomando banho, replicou a outra num tom de quem est na defensiva.
      Ela conduziu Selena ao seu quarto. Na parede atrs da cama, estava pendurada uma maravilhosa colcha de retalhos, feita pela av de Amy. A cama ainda se achava 
desarrumada. E vrios objetos estavam espalhados pelo aposento. Perto do armrio, via-se um montinho de roupas sujas. Na escrivaninha, uma pilha de papis. No cho, 
algumas revistas e em cima destas um copo com leite at a metade.
      Selena sentou-se na cadeira junto  mesa e logo se ps a conversar, como se no houvesse nenhum problema entre elas.
      - Voc ainda est pensando em ir acampar conosco, no est? No foi  reunio de preparao ontem...
      - Tive de "cobrir" uma colega no trabalho que telefonou dizendo que estava doente. No sei se vou ao passeio, replicou Amy, tentando evitar um contato visual 
com a amiga.
      - Por que no? Estamos planejando isso h tanto tempo, Amy! Voc j pediu folga no seu trabalho, no pediu? Trouxe uma ficha de autorizao pra voc.  s 
os seus pais preencherem e entregarem pra eles at segunda-feira.
      - Fiquei sabendo que o Drake vai tambm, falou Amy, arqueando as sobrancelhas e esperando a confirmao da amiga.
      - ; vai sim. E eu estou tentando encontrar a melhor maneira de lhe contar algo que est acontecendo.
      - Drake a convidou pra sair com ele? indagou Amy.
      - . Hoje  noite.
      - Ah, ento voc vai sair com ele! Est empolgada? perguntou ela, parecendo feliz pela amiga.
      - Estou, falou Selena.
      - Que bom, Selena! exclamou Amy, sorrindo e arrumando uma pilha de livros que estavam sobre a mesinha de cabeceira.
      - Voc pensa assim mesmo? quis saber Selena. No est chateada por isso?
      - No! Eu j lhe disse. Agora somos jovens, Selena. A regra  aceitar o convite dos rapazes que nos convidam pra sair com eles, pelo menos dos que a gente 
acha que vale a pena.
      - Obrigada pela compreenso, amiga, disse Selena aliviada. Eu no queria que houvesse um atrito entre ns, s porque o Drake tambm vai ao passeio. Ah, j 
lhe contei? O Wesley tambm vai!
      - Vai? indagou a outra, erguendo a vista para a amiga.
      - Vai. O Shane o convidou para ser auxiliar dele. Foi voc que "armou" isso?
      A garota deu de ombros e respondeu:
      - Apenas sugeri isso para o Shane algumas vezes. Voc sabe.
      - E como est a situao de seus pais? indagou Selena, abaixando um pouco a voz.
      - Parece que esto bem.  como se nada tivesse acontecido. Mas estou esperando que a qualquer hora eles briguem de novo, sabe?
      Selena no sabia. Os pais dela no tinham esse tipo de problema. Ela no sabia o que era ter de andar "pisando em ovos" na prpria casa, para no irritar pessoas 
que j estavam nervosas.
      - Amy, agradeo sinceramente sua compreenso com relao ao Drake. Ele  um cara maravilhoso. Voc est sendo muito legal comigo. Muito obrigada!
      A amiga baixou os olhos.
      - No precisa me agradecer, no.  de voc que ele gosta. Ele nunca esteve realmente interessado em mim. Eu  que estava iludida, pensando que ele poderia 
vir a me enxergar com outros olhos. Alm disso, parece que vocs dois esto se dando muito bem.
      - Deus vai lhe mandar um cara muito legal, Amy. Espere s que voc vai ver.
      A prpria Selena se espantou de estar falando assim. Ela j ouvira outras pessoas dizendo essas palavras de consolo; e detestara. Por que ser que agora lhe 
parecia to natural dizer aquilo? Que ser que estava lhe acontecendo?
      - Bom, ainda tenho de fazer algumas coisas agora de manh antes de ir trabalhar, disse Selena, mudando de assunto. Vou trabaljar at s 9:00h da noite hoje. 
D. Amlia est fazendo uma experincia, estendendo mais o horrio de funcionamento da confeitaria. Se voc puder, d uma chegadinha l.
      - Vou trabalhar de 5:00h da tarde at s 9:00h, replicou Amy. E amanh trabalho o dia todo.
      - Ento acho que s vou v-la domingo, na igreja, disse Selena, levantando-se para ir embora.
      - Espero que se divirta bastante e tenha bons momentos com o Drake, falou Amy quando a amiga j saa.
      - Obrigada. Terei!
      Selena entrou no carro e dirigiu-se para o centro da cidade.  Foi a uma loja especializada em artigos para acampamentos, comprar os objetos de que ainda precisava 
para o passeio. Queria muito sentir-se tranqila com relao a Amy, mas percebia que ainda havia um fio de tenso entre elas. Tinha a impresso de que a amiga no 
estava totalmente  vontade com a situao. Ou seria apenas imaginao sua?
      Logo ao lado da loja a que fora, havia uma farmcia. A garota achou que primeiro deveria pegar ali certos artigos que nunca comprara antes: itens para maquiagem. 
O sabonete biodegradvel poderia ficar para depois.
       noite, aps um banho rpido, Selena vestiu um short de jeans, o de que mais gostava, e uma blusa de algodo. Colocou uma pulseira, um colarzinho e brincos. 
Em seguida, se ps a "brigar" com seu cabelo, tentando dar um jeito nele.
      Ah, no adianta! pensou depois de alguns minutos de trabalho. Por mais que tentasse, o cabelo se mantinha "rebelde". Era encaracolado, desde o alto da cabea 
at as pontas, no meio das costas. As outras garotas sempre admiravam o cabelo de Selena. Muitas diziam que tranqilamente trocariam o delas pelo da garota. E se 
ela pudesse, trocaria de bom grado.
      Contudo sua maior preocupao nessa noite no era o cabelo. Estava bastante empolgada era com a bolsinha de cosmticos que trouxera da farmcia. Lidar com 
maquiagem, para ela, era quase uma aventura. Nunca fora de usar pintura. Nas poucas vezes em que usara, fizera por insistncia de Tnia, que queria demonstrar, na 
irm, sua habilidade nessa questo.
      Hoje porm, estava por sua conta. Girando a escovinha do rmel do jeito que vira Tnia fazer, foi comeando nos clios laterais e passando aos interiores. 
Inclinou-se aproximando-se do espelho e, com a boca aberta em forma de O, aplicou a pintura bem lenta e cuidadosamente. Terminando, deu um passo para trs, piscou 
e examinou o efeito. Ficou satisfeita. Realmente, os olhos pareciam maiores, como Tnia dissera. Completou o servio passando um delineador marrom nos olhos, como 
a irm fizera- uma linha fina e definida. Em seguida, limpou o excesso com um cotonete. At a tudo bem.
      Em vez de batom, ela preferira um gloss, com um colorido natural em tons avermelhados. Gostou dele imediatamente. Alm de realar seus lbios, a substncia 
tinha um agradvel perfume de morango.
      Ser que o Drake vai notar? pensou.
      Sentiu o rosto avermelhar-se um pouco ao imaginar o rapaz beijando-a naquela noite. Guardou o gloss no bolso e deu mais uma olhada no seu reflexo no espelho.
      Pronta ou no, Drake, aqui vou eu!
      
      

Captulo Treze
      
      Drake chegou  hora combinada, e isso foi timo. Enquanto Selena o esperava, ficara to nervosa que comeara a sentir dor no estmago. A ele chegou, e ela 
relaxou. 
      - Voc est maravilhosa! exclamou ele quando a garota foi receb-lo  porta.
      Os pais de Selena fizeram as recomendaes de costume e em seguida os dois saram. Ele viera busc-la num carro azul muito chique, em vez do seu velho carrinho.
      -  da minha me, explicou o rapaz, abrindo a porta do carona para ela.
      Selena acomodou-se no banco de estofado limpo e macio.
      - Eu disse pra ela, continuou ele, que queria que esta noite fosse muito especial. Ento ela me emprestou.
      - Muito legal da parte dela, comentou a garota.
      - Minha me  tima, concordou Drake, entrando no veculo e colocando o cinto de segurana. E esse aqui  bem melhor que o caminho ba.
      - Ainda bem que voc no veio com ele! disse Selena rindo.
      Antes de ligar o carro, Drake se inclinou para ela e pegou sua mo. Sentindo a mo enorme do rapaz envolvendo a sua, Selena pensou no quanto a sua estava suada 
por causa do nervosismo. Esperava que ele no notasse isso.
      - Como est voc? perguntou o rapaz sorrindo.
      - tima! respondeu ela.
      Espantando-se um pouco ao perceber que sua voz sara ligeiramente esganiada, ela pigarreou e prosseguiu:
      - Talvez um pouquinho nervosa. Meu dia hoje foi muito agitado.
      Drake deu um leve aperto em sua mo e soltou-a. A seguir, ligou o carro. Selena tentou pr um pouco de ordem nos pensamentos, que estavam esvoaando em sua 
mente: a preocupao consigo mesma, com sua aparncia, com a roupa que vestia, com sua postura. Ser que deveria tentar chegar mais perto dele? Ser que o perfume 
que colocara no estava forte demais? Deveria abrir o vidro da janela? Ser que estaria dando um "fora" se abaixasse o visor e se olhasse ao espelhinho para verificar 
se seu rmel escorrera?
      - Tambm tive um dia bem agitado, comentou Drake. Arranjamos trs novos clientes em Powell, e as caixas do caminho j estavam vazias. Tive de voltar ao depsito 
para pegar ais. E depois, precisei voltar de novo porque achei que os trs pedidos eram de recm-nascidos, mas um deles era para uma criana de um ano.
      Selena deu uma risada. Drake deu uma espiada para ela e ento compreendeu que aquele "problemo" dele, para ela, era banal.
      - , gente, exclamou ele com um tom de gozao, esse negcio de fazer entrega de fraldas pela cidade  um servio muito penoso!
      - , mas algum tem de faz-lo, n? comentou Selena.
      - Provavelmente, no  to estressante como fazer aqueles cones de sorvete com aquela ponta bem certinha, ?
      A garota riu novamente, sentindo que comeava a relaxar.
      - Voc no faz idia de como  trabalhoso. E depois ainda tem a questo das diferenas. Uns fregueses querem o sorvete de chocolate misturado com creme. Outros 
querem s de chocolate, e outros, s de creme. Vou lhe dizer,  cansativo!
      Drake sorriu. Selena percebeu que ele estava gostando da companhia dela.
      - Comprei os ingressos antes de passar em sua casa, disse o rapaz. Tive receio de que acabassem.
      Pararam numa vaga nas proximidades do cinema e entraram, ainda brincando um com o outro sobre as dificuldades do trabalho de cada um. Pararam na fila da lanchonete 
para comprar pipoca. Drake, que media mais de um metro e oitenta, era bem maior que a garota. Ela adorou o fato de ser mais baixa que ele. Dava-lhe a sensao de 
ser bem delicada. Ronny era apenas alguns centmetros mais alto que ela. Quando andavam de mos dadas, ela se sentia mais como uma irm gmea dele.
      Drake levou-a para uma fileira que ficava bem no centro do cinema. E com um grande pacote de pipoca na mo e dois copos de refrigerante, eles foram andando 
em direo a duas poltronas vazias, passando por mais quatro casais. Afinal, acomodaram-se nelas, e Selena finalmente percebeu que suas emoes se acalmavam um pouco. 
Ajeitaram o pacote de pipoca entre os dois e se puseram a mastig-las. O filme comeou. Selena se indagou se o rapaz iria pegar sua mo. Por enquanto seria meio 
difcil, pois ele estava com a dele ocupada, comendo as pipocas.
      Ps-se a comer mais depressa. Quanto mais cedo acabasse, mais cedo estariam com as mos desocupadas. O rapaz, porm, no parecia ter pressa. S mais ou menos 
de cinco em cinco minutos  que jogava um punhadinho na boca. Percebendo que estava sendo muito gulosa, Selena se aquietou. Passou a comer as suas no mesmo ritmo 
que Drake, procurando curtir mais o filme.
      - Gostou? indagou Drake assim que saam do cinema.
      - Muita ao, n? replicou Selena, reparando no rosto bem barbeado rapaz,  claridade do saguo.  um bom filme. J assisti a um outro, com essa mesma atriz, 
mas no me lembro do nome dele. Mas neste aqui ela est bem melhor que no outro.
      - Est com fome? perguntou o rapaz.
      Selena passou as mos sobre o estmago.
      - 'T brincando? Depois daquela pipoca toda?
      - Vamos tomar algo, ento?
      - Estou com voc. O que quiser est bom pra mim.
      Drake ps o brao em torno dos ombros dela, e Selena colocou o seu em volta da cintura dele. Ningum nunca lhe dissera o quanto aquilo era agradvel. E de 
repente, ela compreendeu o sentido da letra das canes romnticas, os comentrios de suas amigas e as histrias dos filmes de amor. No mundo inteiro, no havia 
outra sensao igual a essa.
      Drake levou-a a um caf e eles se sentaram numa das mesas da calada. Ele pediu chocolate, e ela preferiu ch. Conversaram sobre suas respectivas famlias. 
Falaram dos planos para o curso superior e dos personagens de quadrinhos de que mais gostavam. Comentaram ainda sobre a letra de uma msica que estava tocando naquele 
momento.
      Selena gostou do jeito como o rapaz a fitava - diretamente nos olhos - bem atento s suas palavras. Nunca antes na vida se sentira to especial e apreciada, 
como agora.
      Drake a levou para casa; e no caminho, ele riu muito de uma piada que ela contara. Parou em frente  casa dela e desligou o carro. Selena sentiu o corao 
bater mais forte. Teve vontade de pegar o gloss para lbios, sabor morango, mas achou melhor no. Seria muito bvio. Soltou o cinto de segurana. Drake tambm abriu 
o seu. O rapaz remexeu-se no banco. Ela se ajeitou tambm. Agora, na certa, ele iria notar, pelo claro da luz do poste, que o rosto dela estava ficando avermelhado.
      - Selena, disse ele em voz suave, pegando uma das mos dela.
      Ela entrelaou os dedos com os dele, desejando silenciosamente que as batidas de seu corao se acalmassem.
      - Antes de voc entrar, eu queria lhe fazer um pedido, continuou o rapaz.
      Ento  isso! pensou ela empolgada. Ele  to cavalheiro que vai pedir licena para me beijar, como pediu permisso ao papai para sair comigo.
      - O qu? indagou ela com um leve sorriso, incentivando-o a pedir.
      - Eu no fao isso com todas as garotas com quem saio, explicou Drake.
      O cabelo dele, que estivera todo penteado para trs, caiu um pouco no rosto, no lado direito, dando-lhe um ar de menino, meio vulnervel.
      - Mas voc  diferente, prosseguiu ele. E se no se importar...
      Aqui ele deu um aperto de leve na mo dela. Selena ficou de flego suspenso.
      - Sim?
      - Queria fazer uma orao com voc.
      
      

Captulo Quatorze
      
      Selena soltou o flego devagar. Sentiu um n na garganta, parado ali, sufocando-a.
      - Claro, respondeu fechando os olhos, engolindo em seco e passando a lngua pelos lbios com sabor de morango.
      Drake fez uma orao curta, mas bem sincera. Agradeceu a Deus pelos momentos que haviam passado juntos e pediu que Ele os orientasse em sua vida futura. E 
quando afinal concluiu com um "Amm", a garota j se recobrara do espanto.
      - Obrigada, disse ela. Passei timos momentos.
      - Eu tambm, concordou o rapaz. Espere, vou abrir a porta.
      Selena se recordou de que Amy dissera que Drake abrira a porta para ela. No se lembrava, porm, de a colega haver falado sobre orao. Caminharam juntos at 
a entrada, e antes que a mente da garota pudesse criar uma poro de idias sobre o que aconteceria em seguida, o rapaz sorriu para ela e disse:
      - Boa -noite!
      E a seguir, ele saiu apressadamente, voltando para o carro, dando a impresso de que tinha hora para voltar para casa e de que faltavam poucos minutos.
      Selena sentiu-se emocionalmente esgotada. Estava ao mesmo tempo feliz e triste, maravilhada e frustrada. Abriu a porta e escutou o som da tev ligada na saleta.
      - Selena! era a voz da me chamando-a. Como  que foi l? Divertiu-se?
      - Sim, me, foi maravilhoso! Vou deitar!
      Saiu caminhando em direo  escada, com a cabea ainda meio no ar. No  que no houvesse gostado daquela histria de orarem. Alis, achou timo. Contudo 
aquilo fez com que se lembrasse de que havia um bom tempo que no tinha uma longa e proveitosa conversa com Deus. O que acontecera? O que seria que enchera seu tempo 
daquela maneira?
      Dez minutos depois, no momento em que Selena se deitava, sua me bateu  porta.
      - Como foi l, filha?
      - Foi simplesmente maravilhoso! Ele riu das minhas piadas; abriu a porta pra mim; comprou pipoca e no final, oramos. Acho que estou apaixonada.
      A me de Selena riu.
      - Srio mesmo?
      - Na verdade me, no sei direito o que estou sentindo. Ele pegou na minha mo e orou comigo. Gostei disso. Gostei muito. S que foi diferente do que eu esperava.
      - E o que  que voc esperava? perguntou a me, recostando-se na cama de Tnia.
      Selena sentiu um pouco de constrangimento, de estar falando sobre esses assuntos com a me, mas sempre tinha sido muito sincera com ela.
      - Bom. Pensei que ele fosse me beijar.
      - E ele no beijou?
      - No.
      - E o que  que o beijo iria significar pra voc?
      - Significar? Ah, sei l. Que ele gosta de mim. Que queria sair comigo de novo. Que me acha bonita. 
      A me se ergueu um pouco, firmando-se num dos cotovelos, e apoiou o rosto na mo.
      - E ser que ele no pensa tudo isso mesmo sem ter beijado?
      Selena parou um pouco para pensar.
      - ; ele me deu a sensao de que sente tudo isso. Mas acho que eu estava esperando que me beijasse. Sei l. O tempo todo minha cabea estava um verdadeiro 
rebulio, minhas emoes desordenadas, correndo de um lado para outro.
      A me dela riu.
      - Isso me parece muito normal. E Drake parece um rapaz legal demais. Gostei de saber que ele no a beijou.
      - Por qu?
      - Porque ser melhor que voc d seu primeiro beijo - ou qualquer beijo, pra falar a verdade - quando j souber direitinho o que est "entregando".
      Selena ficou em silncio.
      - Boa noite, filha, disse ela. Que bom que voc se divertiu! 
      Ela se levantou para sair.
      - Ah, a Amy esteve aqui mais cedo. Queria fazer umas perguntas ao Wesley acerca do passeio. Ele lhe deu algumas orientaes sobre a viagem. Voc j est com 
quase tudo pronto, n?
      - Acho que sim. Me, j notou que a Amy est sempre arranjando desculpas para se aproximar do Wesley? Acho que ela tem uma paixonite por ele!
      - , replicou a me que parara  porta. 
      
      - A senhora no acha isso ridculo? O Wesley nunca vai gostar dela do mesmo jeito. Amy s est procurando problema e sofrimento para si mesma.
      - Voc falou isso com ela?
      - Ainda no, explicou a garota.
      - Ento no fale, no, disse a me e saiu fechando a porta.
      Selena apagou a luz e abanou a cabea no quarto s escuras. Como  que sua prpria me podia lhe dizer isso? Em seguida, sorriu. Queria repassar na lembrana 
os bons momentos daquela noite. Reviveu cada sensao que experimentara, como havia feito na quarta-feira, depois que voltara do Monte Tabor. A recordou-se de que 
tinha planejado orar nessa noite. E no dia anterior, fizera o propsito de marcar na Bblia aquele versculo de Hebreus. Contudo estava to cansada! Parecia que 
suas emoes, que haviam ficado correndo de um lado para outro, descontroladas, agora estavam tranqilas, paradinhas, ss e salvas!
      Selena fechou os olhos, ainda com um pouco de rmel, e logo caiu no sono. 
      
      

Captulo Quinze
      
      Na segunda-feira de manh, Selena e Wesley foram os primeiros a chegar ao estacionamento da igreja, com seu material de acampar e as mochilas nas costas. A 
garota resolveu aproveitar os momentos em que ainda estavam a ss para conversar com o irmo.
      - Wesley, disse ela, faz alguns dias que eu queria falar com voc sobre um certo assunto. A semana passada voc disse que, se eu quisesse conversar com algum, 
poderia procur-lo.
      - Perguntas sobre rapazes? indagou ele interessado.
      - No, respondeu ela. Quero avis-lo de possveis problemas com garotas.
      - Ann?
      Nesse momento, a caminhonete do Ronny entrou no estacionamento e passou por eles com o motor roncando alto. O rapaz parou com uma freada brusca, e as trs 
bagagens que estavam na carroceria rolaram para a frente. Ele desligou o carro e ouviram-se risos dentro da cabine. Ronny abriu a porta e saiu. Ao mesmo tempo, Drake 
saiu do outro lado. Logo atrs deste, veio Amy, rindo mais que os outros dois.
      Selena sentiu um n na garganta.
      - Depois eu converso com voc, disse para o irmo.
      - Se voc vai me dizer o que acho que vai dizer, no precisa. No sou ingnuo, Seleninha, replicou ele girando os olhos.
      - Oi, gente! gritou Drake.
      Ele tinha um donut * na boca, seguro pelos dentes, como um cachorro carregando um osso. Amy estava com o cabelo todo sujo de acar refinado e um pouquinho 
de gelia na ponta do nariz. Ainda ria quando se aproximou de Wesley e Selena.
      - Nunca peguem carona com esses dois, gente, avisou ela. Principalmente se eles esto com alguma coisa de comer na mo.
      Selena sentiu o n na garganta apertar ainda mais. Quem ser que havia sujado o nariz dela de gelia? Ronny? Ser que ele de repente se interessara pela garota 
agora que Selena estava saindo com Drake? Ou fora Drake? Ser que Amy estava dando em cima de Drake e ele correspondendo? Pela mente de Selena passou uma sombria 
nuvem de horrveis pensamentos.
      Acho que quero voltar pra casa, pensou.
      - Quer donut? indagou Ronny, estendendo a caixa aberta para Selena.
      - No, obrigada! replicou ela.
      Sentou-se na grama, perto de sua mochila. Drake aproximou-se e soltou a mochila dele no cho tambm, junto  dela.
      - No quer mesmo, no? insistiu Drake. Esto fresquinhas.
      E dizendo isso, sacudiu o bolinho espalhando gros de acar para todo lado. Ento era por isso que a Amy parecia estar com o cabelo cheio de "caspa"!
      - Olhe aqui, Selena, disse Ronny, d uma cheiradinha neste recheado de gelia e me diga de que  este cheiro.
      A garota notou que ele tinha uma expresso de gozao.
      - No cheira, no! interveio Amy. Ele vai esfreg-la no seu rosto!
      A garota limpou a ponta do nariz com o dedo e em seguida passou a mo na grama. Selena fez um esforo e sorriu. Queria participar das brincadeiras deles, mas 
na verdade no podia. A gozao era s entre eles. Os trs estavam brincando entre si. Ela no participava daquilo. E por que ser que se sentia to incomodada com 
isso? Durante o ano todo, os quatro tinham formado um grupinho na cantina da escola. Haviam feito muitas brincadeiras entre eles. Agora, porm, havia algo diferente. 
Era como se ela e Drake tivessem de estar juntos, fazendo gozao um com o outro, e no ele com a Amy.
      Da a pouco, Shane chegou, trazendo consigo diversos outros jovens que participariam do passeio. Ao mesmo tempo, chegaram mais dois carros. A seguir, comearam 
a fazer os ltimos preparativos para o passeio, com todo mundo falando ao mesmo tempo. Afinal, uma hora depois, fizeram uma orao e embarcaram na perua da igreja 
para partir.
      Ronny e Drake foram os primeiros a entrar no veculo, dirigindo-se para o banco de trs. Selena ficou esperta e procurou ir logo atrs deles, sentando-se ao 
lado de Drake. Sentia-se um pouco chateada pelo fato de ele no hav-la esperado nem pensado em guardar um lugar para ela ao lado dele. Que ser que estava acontecendo?
      - Pode trocar de lugar comigo? pediu ele a Selena no momento em que partiam. A na beirada vou ter mais espao para as pernas.
      A garota concordou e deslizou para o meio, ficando ento entre os dois rapazes. Drake passou por ela e se sentou na beirada, esticando as pernas no pequeno 
corredor que havia entre o banco e a lateral do carro.
      Que coisa mais estranha! pensou ela. Eu sentada entre Drake e Ronny. Se fosse na semana passada, provavelmente, eu estaria sentada perto do Ronny, talvez de 
mos dadas com ele ou at com a cabea encostada no ombro dele. Hoje estou com Drake. Ser que ele vai pr o brao no meu ombro? E como  que vou me sentir, vendo 
o Ronny sentado aqui do meu lado? Oh, minha cabea est latejando!
      A perua entrou na rodovia seguindo rumo ao norte. Selena cruzou os braos e escorregou um pouco no assento do banco, resolvendo assim, momentaneamente, o problema. 
Tentando equacionar a situao, fechou os olhos e fingiu que dormia.
      Escutava a voz de Amy l na frente, falando sem parar. Weslwy se sentara no primeiro banco, ao lado do motorista, e ela se acomodara logo no segundo. Ela ficava 
perguntando detalhes tcnicos sobre a caminhada que iriam fazer.
      "A gente deve apertar bem as alas da mochila? Ser que vai doer as costas?  melhor apoiar a mochila nos quadris ou na cintura?"
      Nisso Amy era diferente de Selena: tinha quadris grandes onde poderia apoiar a mochila. E tambm tinha uma ciutura fina, o que, alis, ficava bem  mostra 
com a roupa que ela usava para o passeio. Estava com um short de tecido fino e uma camiseta branca bem curta. Quando ela levantava o brao, seu umbigo aparecia. 
Definitivamente, no era um traje muito adequado para a caminhada que fariam.
      Selena j fizera esse tipo de passeio vrias vezes antes, e sabia bem o que era melhor vestir. Por isso, estava com um short de tecido grosso, cheio de bolsos, 
na cor verde exrcito, e uma camiseta tambm verde escuro. Por cima, ainda usava uma velha camisa de flanela de seu pai. Isso era bem mais prtico.
      Ento, por que tinha a sensao de que estava mal-arrumada? E por que Drake a estava ignorando, dando mais ateno a Jana, uma garota que estava sentada no 
banco da frente? Jana trouxera um joguinho de bolso, chamado "Fileira de Quatro", e os dois ficaram jogando-o durante todo o trajeto at o local da caminhada.
      Volta e meia, Selena dava uma espiada para o lado de Ronny. E sempre que o fazia, via-o olhando para fora, pela janela, parecendo estar imerso em seus pensamentos. 
E enquanto a perua ia rodando em direo ao Monte Adams, Selena ia desenrolando os pensamentos, quase como se eles fossem um comprido rolo de toalha de papel. E, 
 semelhana de um rolo de toalha, que apresenta sempre o mesmo desenho, a mente da garota tambm tinha uma s idia. E no eram florzinhas enfileiradas, mas longos 
pensamentos acerca de seu relacionamento com Drake. Outro "desenho" que s vezes surgia tambm era o de Ronny e sua amizade com ele. Como ela o encaixaria no quadro 
geral? E toda vez que Amy dava uma das suas risadinhas infantis, Selena se indagava se fora acertada a deciso de escolher essa colega para ser sua melhor amiga.
      E quanto mais ouvia Drake e Jana prosseguindo no joguinho, mais se sentia "por fora".
      Talvez eu devesse fazer algo para que ele voltasse sua ateno para mim, pensou. No;  melhor assim. Desse modo estamos juntos, mas ainda somos amigos de 
todos. Ento eu deveria conversar com Ronny. Mas e se ele achar que estou interessada nele? Ronny ainda no sabe que eu e o Drake estamos juntos; ou sabe? E se ele 
tentar pegar minha mo? Ser que ele tentaria? E por que o Drake no segura minha mo?
      - Pronto! exclamou Drake de repente. Consegui! Fiz a fileira de quatro!
      Selena desejou que ela tambm conseguisse fazer uma "fileira de quatro" dos seus desordenados pensamentos; e se possvel, antes de chegarem ao local onde fariam 
a caminhada. Era muito estranho "curtir" as belezas da natureza criada por Deus e, ao mesmo tempo, ter a sensao de que todos lhe tinham virado as costas, at as 
criaturas de Deus! Com certeza, um passeio como aquele no era um bom contexto para se resolverem "desencontros" nos relacionamentos. Era uma situao em que todos 
tinham de atuar em harmonia, como uma equipe coesa. Contudo Selena, com certeza, no se sentia parte de uma equipe ali.
      
      

Captulo Dezesseis
      
      - Vire ali, disse Wesley para Shane. Aqui no mapa tem uma informao de que h uma rea de estacionamento, na trilha do Pacfico, que fica mais abaixo, neste 
caminho.
      Era uma estrada de terra, muito acidentada, e todos ficaram gozando e rindo como se estivessem num dos brinquedos da Disneylndia.
      -  por ali, continuou Wesley orientando.  para o norte. Vai seguindo em frente.
      - Esta estrada  um pesadelo! exclamou Shane quando o carro deu outro solavanco.
      Selena olhou pela janela onde estava o Ronny. A montanha surgira  frente deles.
      - Foi essa que entrou em erupo? indagou.
      O rapaz se virou para ela.
      - No. Esse aqui  o Monte Adams. O que tem o vulco  o St. Helens. J fui l vrias vezes com meu pai, pois ele j participou de diversas equipes de gelogos. 
Mas aqui eu nunca vim.
      - No sabia que seu pai era gelogo, interveio Drake, inclinando-se e chegando mais perto de Selena para olhar pela janea. Ah, ento voc  um cara experiente 
em vida ao ar livre, em contato com a natureza, hein?
      - Mais ou menos, replicou Ronny, dando seu sorriso meio torto pela primeira vez desde que haviam iniciado o passeio.
      - E voc, Selena? indagou Drake. Voc foi criada nas proximidades do Lago Tahoe, no foi?
      A garota fez que sim e recostou-se no banco, percebendo que agora ele estava bem junto dela, e ela, do Ronny. O carro bateu em algum buraco da estrada e ela 
deu uma cabeada no ombro de Drake.
      - Ui! Desculpe! murmurou ela.
      O rapaz passou o brao pelo ombro dela, como se ele fosse uma espcie de cinto de segurana.
      - Fala, disse ele. O que voc ia dizer?
      - J esqueci, respondeu Selena, reconhecendo que agora o relacionamento dos dois ficara evidente para todos.
      Deu uma espiada para Ronny. Este virou o rosto e se ps a olhar l para fora.
      - Sua famlia acampava muito e fazia caminhadas ecolgicas quando voc era pequena? indagou Drake.
      - Fazia, mas o Wesley entende mais desse assunto do que eu. Ronny tambm.
      Sua inteno era que Ronny se virasse para eles e voltasse a participar da conversa, mas isso no aconteceu.
      - , vou ficar perto de vocs, disse Drake, dando um leve aperto no brao de Selena. Quer saber de um "segredo"? Essa  a primeira vez que fao um passeio 
desses, com uma caminhnada ecolgica.
      - Tenho certeza de que voc vai gostar, comentou Selena.
      - S fui acampar uma vez antes, continuou o rapaz. Para meu pai, o maior desconforto que ele estaria disposto a agentar seria ir para um hotel que no tivesse 
tev a cabo.
      Selena riu; Ronny ficou srio. Afinal, o carro parou.
      - Chegamos! avisou Shane. Agora quero que todos me ajudem a descarregar o reboque.
      Os jovens foram saindo do veculo um a um, entre risos e brincadeiras. Selena foi para junto do reboque e se ps a tirar objetos de dentro dele. Muitas das 
outras garotas estavam dando risadinhas, dizendo que no sabiam colocar s costas aquelas mochilas especiais; e pediam aos rapazes que as auxiliassem.
      - No olhe pra mim, no, disse Drake para Jana. Sou novato nesse negcio. Pea  Selena. Ela  que  a entendida em vida ao ar livre.
      - O que  que eu fao com esta correia aqui, entendida em vida ao ar livre? indagou a garota para Selena.
      - Essa a  para guardar o cantil ou a garrafa de gua, explicou Selena. Voc trouxe?
      - No, respondeu a outra meio constrangida.
      - Estava na lista, comentou Selena. 
      - , sei. Mas no peguei uma lista.
      - Eu trouxe algumas garrafas a mais, disse Shane. Algum precisa?
      Cinco jovens responderam:
      - Eu preciso!
      Selena e Wesley se entreolharam, e a garota percebeu que o irmo estava pensando o mesmo que ela, com relao ao passeio. Shane no chegara a dizer que tinha 
pouca experincia nesses programas de caminhadas ecolgicas, mas deu para notar claramente que ele se alegrou muito quando Wesley resolveu participar. E Selena tambm 
estava satisfeita de que o irmo tivesse vindo. Ela estudara os mapas que lhe tinham entregado na noite anterior. Percebera que o trajeto proposto era relativamente 
fcil. O percurso teria um total de dezenove quilmetros. Iriam caminhar na montanha, fazendo uma ascenso de seiscentos metros.
      A altitude do ponto em que se encontravam, no incio da trilha, era de cerca de 1.580 metros. O ar matinal ainda estava meio frio. Selena puxou as meias de 
l que usava, esticando-as completamente, e bateu os calcanhares no cho com fora.
      - Isso  alguma velha tradio indgena? indagou Drake, brincando e imitando seu gesto. Voc est parecendo um cavalo de raa pronto para dar a largada numa 
corrida.
      Ela ergueu o rosto para o rapaz e viu uma expresso carinhosa no olhar dele. Seu corao bateu forte.
      - E voc, est pronto?
      - Creio que sim, replicou ele. Estava ansioso  espera deste passeio.
      - , eu tambm estava ansiosa que chegasse este dia, pensou ela. E estou empolgada com a perspectiva de passar esses momentos na companhia de Drake. Mas ser 
que ele ainda est feliz de estarmos juntos?
      - O.k., pessoal, disse Shane, interrompendo sua linha de pensamento, escutem aqui. O trecho que vamos percorrer na parte da manh  muito fcil e bom. Andemos 
pouco mais de trs quilmetros e pararemos em um lugar chamado Nascente da Lava. No saiam da trilha. Vamos ficar todos juntos. Eu irei  frente e Wesley vir fechando 
a retaguarda. Se ele ultrapassar algum, essa pessoa est em apuros.
      - Entendido, seu "guia", disse um dos rapazes na brincadeira.
      Todos riram e logo em seguida Shane gritou:
      - Mochila no ombro, e vamos em freeente!
      Selena deixou que os mais apressadinhos fossem logo fazendo fila atrs de Shane. No tinha dvida de que Amy iria ficar para trs, a fim de ser a penltima 
e caminhar perto de Wesley. Ronny foi logo andando pela trilha e Drake ficou esperando Selena. A trilha era muito estreita e no dava para ficarem um ao lado do 
outro. Ento ela se ps a caminhar, e o rapaz veio em seguida. Atrs dele estava Amy, e aps esta, Wesley.
      A primeira parte da trilha era uma descida tranqila. Todos iam caminhando, com nimo alegre, conversando alto, certamente espantando os animais que estivessem 
num raio de um quilmetro. Selena se sentia frustrada. Estava acostumada a fazer esse tipo de passeio em silncio, observando as belezas da natureza e procurando 
ouvir algum som novo. Dessa vez, porm, o nico som novo que escutava eram as incessantes perguntas de Amy para Wesley.
      - Esta correia tem de ficar mesmo forando meu ombro? Ser que no est afivelado muito justo? Este protetor que voc me deu, eu tinha de calar antes de comear 
ou colocar depois que der bolha nos ps?
      Selena desejou que ela e Drake pudessem seguir atrs de Wesley para apreciarem com mais vagar as belezas daquele vale tranquilo. A regio era coberta de belas 
rvores de flores azuladas, que pareciam formar um imenso tapete. O caminho era cercado de altos pinheiros que constituam uma maravilhosa moldura para o Monte Adams. 
A medida que a manh ia avanando, as nuvens pareciam ficar mais altas. O grande pico, apontado para o cu, brilhava em todo o seu esplendor, com sua cobertura de 
neve. Selena lembrou-se de que deveria ter trazido sua mquina fotogrfica para gravar para sempre aquela paisagem, aquela sensao maravilhosa. Em seu corao, 
comeou a brotar, bem de leve, um cntico conhecido. Tendo nascido e sido criada numa regio montanhosa, a impresso que tinha era de que estava "chegando em casa".
      Deu uma espiada para trs, por sobre os ombros, para olhar o irmo. Pela expresso que viu no rosto dele, quando a montanha surgiu diante deles, dava para 
perceber que estava sentindo o mesmo deslumbramento que ela.
      A garota riu interiormente. Estamos parecendo mais o "Peter" e a "Heidi", daquela histria infantil, quando iam visitar o av. S falta agora termos aqui alguns 
cabritos e uma garota numa cadeira de rodas.
      Imediatamente, Selena rejeitou a comparao. A ltima coisa que deviam ter ali era uma pessoa numa cadeira de rodas. E do jeito que o grupo estava caminhando, 
havia vrios participantes que poderiam ter problemas mais tarde.
      Todos os caminhantes alcanaram a Nascente da Lava sem grandes incidentes. Quando Selena chegou ao ponto onde se achava o grupo, viu que Shane e outros rapazes 
estavam tirando a camisa e os sapatos, como que querendo entrar na gua.
      - Ela est gelada, gente! avisou Ronny. Isso a  neve que derreteu agora h pouco.
      Shane foi o primeiro a enfiar o p na gua. E logo em seguida soltou um grito.
      - Uhhh! Ele est falando a verdade, pessoal!
      - Olhe aqui, gente, interveio Wesley, procurando usar um tom de voz que no deixasse o Shane constrangido. Acho bom no sujar essa gua, j que ela est bem 
perto da nascente.
      - Est querendo dizer que estou sujando o riacho? perguntou Shane em tom brincalho. O.k., pessoal. O Wesley tem razo.  melhor a gente no entrar na gua, 
no. E alis, ela est mesmo muito gelada.
      Selena soltou as correias de sua mochila e a tira que passava na cintura. Contudo, antes que a pegasse, algum segurou-a e ajudou-a a desprend-la. Era Drake.
      - Obrigada! disse a garota. Quer que o ajude a tirar a sua?
      - No. J deu pra tirar. Essa trilha  maravilhosa, no ?
      Antes que Selena fizesse qualquer comentrio, ouviram um gritinho agudo atrs deles. Amy tinha tentado sentar-se, sem tirar a mochila e agora estava cada 
no cho, como se fosse uma tartaruga deitada de costas. A garota batia desesperadamente os braos e as pernas, mas no conseguia se endireitar.
      - Socorro! Me ajuda aqui, gente! Wesley, no estou conseguindo me virar. Oh, gente, isso no tem graa nenhuma!
      Selena sorriu. Pela segunda vez, naquela manh, desejou ter trazido a mquina fotogrfica.
      
      
Captulo Dezesseis
      
      Os caminhantes resolveram lanchar na Nascente da Lava e depois prosseguir um pouco mais na trilha antes de armar o acampamento. Selena deitou-se no cho ao 
lado de Drake, sentindo o calor do sol do meio-dia. Em seguida, ps-se a comer seu sanduche de carne seca. Adorava sentir o sol no rosto e o gosto salgado da carne. 
Estava adorando tambm ouvir a voz de Drake lhe contando de uma ocasio, quando era menino, que tentara pegar um passarinho.
      A garota observou que Ronny havia se afastado, descendo um pouco riacho abaixo, e estava lanchando sozinho. Amy sentara perto de Wesley e lhe pedira que olhasse 
os ps dela, para ver se estavam com bolhas.
      -  s isso que tem pra comer? indagou Jana, sentando-se junto de Drake. No vamos ter outros sanduches, no?
      - No, respondeu Selena. O lanche que nos deram de manh  para o passeio todo. Nossa esperana  pescar alguns peixes  tarde, para o jantar. No mapa diz 
que, rio acima, tem uma grande variedade deles.
      - Achei que esse lanche para a trilha era s uma merenda. E eu nem gosto de castanhas.
      - Quer um pouco do meu? ofereceu Selena.
      - No quero reclamar, no, continuou a outra, mas no gosto de carne seca tambm, no.  muito dura.
      - Mas voc tem de comer alguma coisa, disse Wesley, aproximando-se dos trs. E precisa beber muita gua, seno pode ficar desidratada. Isso  muito fcil de 
acontecer nessa altitude.
      - Isso aqui no  lindo? falou Selena para o irmo.
      O rapaz tomou um bom gole de seu cantil e depois correu os olhos pela paisagem que os cercava. 
      - Aqui seria um timo lugar para acamparmos. A partir daqui, a trilha  s subida, disse ele, fazendo um gesto significativo. As noites so mais frias.
      Selena pensou se o irmo no estaria achando difcil ser apenas um auxiliar nesse passeio, quando seria um lder bem mais competente do que o Shane. Contudo, 
se ele pensava isso, no o demonstrava. E no havia dvida de que estava sendo muito atencioso com a Amy, que o seguia por toda parte.
      Meia hora depois, partiram. Silenciosamente, Wesley foi ocupar o final da fila, enquanto Shane ia  frente. Puseram-se a subir, atravessaram uma pontezinha 
de toras de madeira, sobre um riacho de leito pedregoso. Os pernilongos comearam a atacar e Selena passou repelente no rosto, no cabelo, nas mos e pernas. Colocou 
o bon de beisebol na cabea e abaixou as mangas da camisa de flanela que estava usando. Embora os insetos esvoaassem perto dela, no a picaram. O repelente funcionou 
direitinho. Mais tarde, quando verificou, s tinha uma picada, nas costas da mo esquerda.
      Dessa vez, Drake ia  frente de Selena. A garota se ps a observar a mochila vermelha dele se movendo a cada passo que ele dava. Por uns instantes, ela ps 
de lado as agradveis sensaes que experimentava por se achar em contato com a natureza e deixou que as inquietaes a dominassem de novo. Nos ltimos dias, ela 
estivera atordoada com muitas emoes. Seus sentimentos haviam tomado conta de todo o seu ser. Agora, pela primeira vez, se dava conta de como eles eram fortes.
      Sentia-se incomodada pelo modo como Ronny e Amy pareciam estar ignorando os dois. Ser que tinha de ser desse jeito, quando duas pessoas comeavam a namorar?
      Pensou que seus sentimentos por Drake eram bem diferentes dos que tinha por Ronny.
      O Ronny foi uma espcie de escola para mim, concluiu ela. Ele me ajudou a iniciar essa questo do namoro. Com ele, tive as "primeiras aulas" no assunto. Agora 
j posso continuar sozinha.
      Gostou da analogia que ela prpria criara. A trilha agora atravessava uma floresta de pinheiros muito altos, que transmitiam uma sensao de quietude e paz. 
Selena se ps a imaginar o que aconteceria naquela noite, quando se reunissem em volta da fogueira, e ela fosse envolvida pelos braos de Drake. Talvez eles se afastassem 
um pouco do grupo, se assentassem numa pedra e ficassem olhando o cu,  procura de estrelas cadentes. A ele a beijaria. Tudo seria perfeito. Seria o primeiro beijo 
mais romntico que uma garota poderia desejar!
      - Olha s isso aqui! disse Drake. O rapaz estava alguns metros  frente de Selena e subira a um barranco que havia na trilha. Ela chegou junto dele e correu 
os olhos pela paisagem. Dali avistava-se uma campina ensolarada, pontilhada de milhares de florzinhas silvestres que ondulavam ao sopro da brisa. Pareciam dar as 
boas-vindas aos jovens que entravam no mundo delas.
      - Uau! exclamou Selena.  lindo! Adoro isso!
      - Sabia que voc iria gostar, comentou o rapaz.
      Ele estendeu o brao e pegou a mo dela. A dele era forte e quente. Ele a segurava com firmeza.
      - Voc se sente em casa aqui, no ? indagou o rapaz.
      Selena fez que sim, ainda "bebendo" com os olhos a beleza que se descortinava  vista deles. Pensou que, se ela no estivesse com a mochila s costas, era 
provvel que Drake passasse o brao em torno dela e a abraasse. E embora ela estivesse com o rosto todo coberto de repelente de insetos, ele a fitaria bem dentro 
dos olhos e diria que era encantadora, como aquela campina. A...
      -  pra dar uma parada aqui? Gente, vamos fazer uma parada...
      Era Amy que se aproximava, acompanhada de Wesley, e que j ia comeando a tirar a mochila.
      - Estamos s admirando a paisagem, explicou Drake, soltando a mo de Selena despistadamente. Os outros j esto bem mais adiante.
      - Mas ser que no podemos descansar um pouco?
      -  melhor continuar em frente, aconselhou Wesley, ajeitando a aba do chapu e correndo os olhos pela paisagem. Uau! Isso  incrvel!
      - O que  incrvel? quis saber Amy.
      - Essas flores. A campina. Essa vista.
      Amy deu uma olhada, mas logo em seguida olhou para baixo.
      - ;  muito bonito, disse. Meus ps esto dizendo que  hora de parar.
      - Ah, que  isso? interveio Selena.
      Naquele momento, sentiu satisfao em ver que a amiga pelo menos conversara com eles.
      - Vamos em frente, continuou ela.
      Ela se indagou se Wesley tinha visto que ela e Drake estavam de mos dadas. Ah, e o que importa tambm? pensou.
      Os quatro saram caminhando em silncio, e Selena voltou a se concentrar em seus pensamentos. Rapazes, namoro, sonhos, esperanas e anseios - tudo aquilo era 
novidade para ela. Sua expectativa era que, assim que armassem a barraca, ela pudesse conversar com Amy sobre essas questes. A amiga iria compreender o que sentia, 
pois j tivera muitos namorados. E talvez ela pudesse orient-la sobre como poderia manter a amizade com Ronny, apesar de estar namorando Drake.
      Continuaram subindo. Afinal, quando se encontraram com os outros no local onde iriam acampar, Selena se achava bem cansada. Contudo era agora que iria comear 
o trabalho mais rduo. Tinham de dar uma limpada no terreno e armar as barracas. Depois, acenderiam a fogueira e iriam tentar pescar alguns peixes para jantarem. 
Felizmente, a turma toda ainda se achava bem animada. Com isso, a tarefa de armar as barracas foi at rpida.
      Amy veio dizer a Selena que iria ficar na barraca da Jana, o que deixou a garota muito surpresa.
      - No  nada pessoal, explicou Amy.
      Selena teve certeza de que era algo de pessoal, sim. Embora a amiga lhe houvesse dito que no havia problema de ela namorar Drake, o fato era que se mostrava 
fria e quase no a fitava diretamente.
      Selena ajeitou sua barraca e estendeu no cho o saco de dormir. Depois, pegou seu sabonete biodegradvel, uma caneca e foi em direo ao crrego. E da, se 
perdesse a amizade de Ronny e Amy? Tinha as atenes de Drake, que era o que mais queria.
      Seguindo as instrues que recebera do pai, ela encheu a caneca de gua, que era limpinha e estava muito fria. Deu alguns passos, para se afastar do riacho, 
e se ps a ensaboar as mos, o rosto e o pescoo. Em seguida, enxaguou tudo com a gua da vasilha e abanou as mos para secar. Tirou do bolso de trs um leno grande 
e enxugou as faces e o pescoo. Afinal, repirou fundo, sentindo a brisa fresca da montanha soprar-lhe o rosto.
      - Toda prontinha agora? disse uma voz s suas costas.
      - Drake! exclamou ela. No notei que estava a me espiando.
      - No estava espiando. Me arranja um pouco do seu sabonete? disse o rapaz, mostrando as mos sujas de lama. Estou me sentindo imundo.
      Selena estendeu-lhe a caneca e o vidrinho de sabonete lquido. Teve vontade de dizer-lhe que ele no lhe parecia imundo. Naquele momento, parecia at um montanhs, 
com o cabelo todo desarrumado pelo vento e o nariz meio queimado de sol.
      - Voc est parecendo mais o monstro da lagoa misteriosa! falou ela brincando.
      O rapaz fez uma careta sinistra e veio andando em direo a ela, meio mancando, imitando um monstro. Ergueu as mos sujas, como se fosse pass-las no rosto 
da garota. Selena ficou parada, com as mos nos quadris.
      - No se atreva! disse ela rindo.
      Drake adiantou-se e, num movimento rpido, agarrou-a pela cintura, erguendo-a e colocando-a no ombro, como Wesley s vezes fazia. A garota ficou admirada com 
a fora dele.
      - Me solte, seu monstro feioso e grando! gritou ela, dando risada e batendo nas costas dele com os punhos cerrados.
      - Soltar? indagou ele, caminhando em direo ao riacho.
      - No! No! berrou Selena com voz aguda.
      Drake parou bem  beira da gua.
      - Ah, esqueci! falou ele, pondo-a no cho, mas conservando o brao em volta da cintura dela. No devemos sujar a gua, n?
      - Isso mesmo! disse Wesley, surgindo atrs deles.
      Os dois se viraram, espantados de v-lo ali.
      Ser que ele viu tudo? pensou Selena. Teve vontade de explicar que os dois estavam s brincando. Mas, por outro lado, era simplesmente o Wesley, e eles no 
haviam feito nada errado.
      Drake largou a garota. Ela se afastou e se sentou na grama. O irmo dela aproximou-se do riacho e, silenciosamente, se ps a lavar-se tambm. Drake passou 
sabonete nas mos e j ia enfi-las na gua, mas Wesley o deteve.
      - Pegue gua com a caneca e enxge afastado do riacho, disse. No devemos sujar a gua porque mais adiante talvez tenhamos de beber dela.
      O rapaz fez um aceno afirmativo e seguiu as instrues dele, observando-o para ver como ele fazia. Wesley jogou gua nas mos e no rosto e, em seguida, tirou 
um leno grande do bolso de trs. Usou-o para enxugar-se e depois atou-o em volta do pescoo.
      - Sabe o que mais? continuou Wesley. As leis da natureza se aplicam tambm a outras situaes de nossa vida, como nesse caso, por exemplo.
      Drake olhou para Selena e em seguida para Wesley.
      - Acho que no entendi, disse.
      O irmo da garota coou o queixo e foi abrindo os lbios num sorriso significativo.
      - ; muita gente no entende.
      Drake fitou Selena com uma expresso interrogativa.
      - Que  que voc est a falando, Wesley? indagou ela, meio irritada.
      Queria que seu irmo fosse embora e deixasse os dois sozinhos.
      -  muito simples. No suje a gua. Talvez voc no venha a beber dela depois, mas outra pessoa beber.
      E assim dizendo, ele se virou para sair, mas acrescentou:
      - No  bom sujar nada que est puro!
      
Captulo Dezoito
      
      - Que ser que ele quis dizer? indagou Drake, sentando-se na grama ao lado da garota.
      Selena sentia o corao bater forte e ficou olhando para o irmo que se afastava assobiando. Sabia exatamente o que Wesley quisera dizer. O pai deles usara 
a mesma figura certa vez quando estavam fazendo um passeio desses. Ele explicava a Cody, irmo de Selena, que ele e Katrina, sua namorada, deviam permanecer puros, 
embora tivessem planos de se casar. Na ocasio, Selena era bem pequena e no entendera direito o que o pai dissera. Contudo lembrava-se de que ele aconselhara seu 
irmo a "no sujar a gua que mais tarde ir beber".
      Agora, porm, estava compreendendo. Ela era pura e sem muito conhecimento dessas questes relacionadas a namoro. Nunca ningum a beijara. Ento Wesley, com 
seu jeito de irmo mais velho, estava advertindo Drake para que no mudasse essa situao.
      Mas e se eu quiser mudar? Que mal um beijo pode fazer? pensou ela com um sentimento de rebeldia. Quero que o Drake me beije; e no me importo com o que o Wesley 
vai dizer.
      - No ligue pra ele, disse ela para o rapaz.
      - Ser que ele trabalha no instituto de proteo ambiental ou algo assim?
      - Mais ou menos, replicou Selena, vendo-se como o "meio ambiente" que o irmo queria proteger. E a? Est gostando do passeio?
      - Mais do que esperava, disse Drake. Voc tinha razo.
      Ele se deitou, apoiando a cabea sobre os dedos e erguendo o rosto em direo ao cu.
      - Aqui  tudo to diferente, continuou o rapaz. Os rudos, as cores e at o sol. Ele parece estar mais perto da gente.  tudo muito lindo!
      Em seguida, virou-se para a garota, esticou o brao e pegou um das mechas encaracoladas de Selena que lhe caam sobre os ombros.
      - Voc tambm  linda! prosseguiu ele em voz suave. Mas voc j sabia disso, n?
      A garota sentiu-se transbordante de alegria com o elogio. Nenhum outro rapaz lhe dissera isso.
      - No! respondeu ela meio acanhada.
      Drake sorriu e ficou girando a mecha de cabelo entre os dedos.
      - , Selena, continue fingindo que no sabe o quanto voc  bonita.  melhor assim.
      Soltou o cabelo dela, sentou-se e esticou bem os braos para relaxar os ombros.
      - Drake, voc ainda est gostando de estar comigo? Indagou Selena.
      - Claro! Por qu?
      - Sei l. Acha que os outros esto nos tratando diferente?
      - Voc quer dizer seu irmo?
      - Todo mundo.
      Drake deu de ombros.
      - Que importa? Ser que voc pode fazer uma massagem no meu ombro? Estou sentindo que est meio tenso aqui, disse ele, apontando o local certo.
      Selena se ps de joelhos atrs dele e passou a massage-lo. O rapaz tinha razo. Estava um pouco tenso.
      - Fica virando a cabea de um lado para outro, disse ela.
      Ela tinha muita experincia, pois fizera aquilo com seus irmos muitas vezes. Drake gostou da tcnica que ela demonstrou.
      - E a? indagou a garota, quando sentiu que suas mos comeavam a doer. Melhorou?
      - Fantstico! disse ele. Voc sabe massagear melhor que muitas outras garotas. Quer que eu faa em voc tambm
      Selena pensou que seria maravilhoso sentir as mos fortes de Drake em suas costas. Contudo, quando ele dissera "muitas outras garotas", ela se sentira meio 
incomodada. Ficara com a sensao de que era apenas mais uma dentre as muitas namoradas que ele tivera. No era uma pessoa especial e singular para ele; apenas Selena.
      - Precisa no, replicou. Estou muito bem.
      - Acho bom a gente voltar e ver se precisam de nossa ajuda para pegar os peixes para o jantar, falou Drake.
      Ele se levantou e estendeu a mo para a garota. Ergueu-a, puxando-a para junto de si. Passou os braos em torno dela num abrao apertado.
      Selena sentiu as emoes agitadas. Contudo, em vez de se sentir animada, imaginando o beijo que Drake iria dar-llhe, o seu primeiro beijo, ela se viu presa. 
Sufocada. Com movimentos lentos, afastou-se dele.
      - O que foi? indagou ele. Tudo bem com voc?
      - Sim. S que estou me sentindo meio suada e suja, explicou ela. Depois de uma caminhada longa dessas e com o repelente que coloquei e tudo o mais...
      - Pra mim, voc est linda e perfumada como uma flor.
      Selena, porm, no poderia dizer o mesmo a respeito dele. Era fato que ele lavara as mos e o rosto, mas no momento em que encostou o rosto no peito dele percebeu 
que ele estava com um cheiro meio forte. No era isso que esperava sentir.
      Drake colocou o dedo sob o queixo dela, erguendo-lhe a cabea. Deu um sorriso cheio de ternura.
      - Olhe, disse, no quero pressionar voc a nada.
      - , eu sei.
      Sentiu-se muito nervosa. Sua inexperincia a deixava envergonhada.
      - Quer voltar pra l? perguntou o rapaz.
      - , acho que devemos voltar.
      Voltaram de mos dadas para o local onde estavam acampados. Quando se aproximavam, Selena notou que os outros os viram chegando. Sentiu o rosto avermelhar-se, 
embora os dois no tivessem feito nada errado.
      Drake armou seu canio e saiu com Wesley. Ambos chamaram Selena para ir pescar, mas ela lhes disse que fossem andando. Iria depois. Queria ficar a ss por 
uns instantes.
      Afastou-se um pouco do acampamento e sentou-se sobre uma rocha lisa. A pedra estava morna e comunicou-lhe a sensao de conforto de que sua alma precisava. 
Encolheu os joelhos e passou os braos em torno deles. Comeou a chorar.
      Afinal, o que  que h comigo? Nos ltimos dias, eu estava to alegre. agora estou descontrolada!
      E durante quase uma hora ela permaneceu ali sentada sozinha, chorando, pensando e fazendo oraes curtas, de frases esparsas. Isso no era muito dela. Geralmente 
conseguia resolver tudo. Para ela, conversar com Deus era uma prtica to natural quanto respirar. Agora, porm, sentia-se confusa, a cabea cheia de questionamentos 
a respeito dela mesma e de Drake. Tinha indagaes sobre sua amizade com Ronny e Amy e at sobre seu relacionamento com Deus. O nico fator presente naquele momento 
era aquela pergunta, j to conhecida, que se repetia no fundo de sua mente:
      Selena, ser que voc est agindo certo?
      Aqui ela no agentou mais e cedeu. Pela primeira vs, reconheceu o fato.
      - No, Senhor, no sei se estou agindo certo. Ensina-me, Pai. Revela-me tua vontade. Preciso de ti.
      Instantes depois ouviu a voz grave de Wesley chamando-a de volta para o acampamento e sentiu alvio. O sol se pusera completamente, desaparecendo por detrs 
do arvoredo, Quando Selena chegou de volta s barracas, percebeu que a brisa noturna se tornara bem mais fria. Entrou em sua tenda e vestiu uma cala de moletom 
felpudo, por cima do short mesmo, e em seguida o agasalho grosso. Na fogueira, havia trs peixinhos assando.
      - Ainda no entendo como esses peixes vo dar para ns todos, reclamou Jana. A no ser que acontea aqui aquele milagre de Jesus, quando ele fez a multiplicao 
dos pes e dos peixes.
      - No vai ser preciso, no, comentou Amy. Voc pode ficar com o meu pedao.
      As duas garotas estavam sentadas lado a lado, perto do fogo, ambas envolvidas num mesmo saco de dormir, que tinham aberto.
      - Vocs no trouxeram agasalho de frio? indagou Shane
      - O meu irrita a pele, respondeu Jana. E o dela no combina com suas roupas.
      Elas riram e deram uma espiada na direo de Selena, mas no lhe disseram nada. Esta pensou em sentar ao lado de Drake e apoiar-se no seu peito largo. O rapaz 
se achava perto de Shane, e os dois conversavam animadamente sobre o trecho seguinte da caminhada. Selena acabou indo ficar junto do irmo e toda a vez que aa imprevisvel 
fumaa vinha em sua direo, tinha de desviar-se dela. Afinal, puseram-se a comer, mas ela continuou como estava, falando pouco.
      Quando as primeiras estrelas comearam a aparecer no cu recortado de nuvens, Shane avisou que iriam realizar um estudo bblico em volta do fogo. Selena foi 
 barraca pegar a Bblia e, ao voltar, sentou-se atrs de Drake. O rapaz virou-se para ela e sugeriu-lhe que viesse para mais perto da fogueira. Ela concordou de 
bom grado, pois aproximar-se do fogo implicaria estar junto dele. Percebeu que Wesley e Amy, que se achavam do outro lado do crculo, estavam de olho nela. Com isso, 
aquelas incmodas sensaes de inquietao voltaram a atorment-la.
      No estou fazendo nada errado! pensou, como que respondendo aos olhares deles. I
      Shane deu incio  reunio.
      - Para nosso assunto de hoje, pensei em conversarmos sobre relacionamentos, disse ele, nosso relacionamento com Deus e uns com os outros. Vamos comear com 
uma palavra de orao, o.k.?
      Todos inclinaram a cabea e Selena se chegou um pouco mais para Drake. Achou que ele iria pegar na mo dela, como fizera dias atrs, quando haviam orado no 
carro. Contudo, em vez de pegar na mo dela ou mesmo de perceber que o brao dela estava quase encostado no dele, ele se remexeu, afastando-se da garota. Assim, 
em vez do conforto do brao do rapaz em torno de seu ombro, Selena sentia a fria brisa da noite passando entre eles.
      

Captulo Dezenove
      
      A maior parte do que Shane disse, Selena ja tinha ouvido ou pensado por si mesma. Preserve-se para seu futuro cnjuge. Garotas, esperem aquele que vai ser 
o seu grande amor, o seu heri. Rapazes, tornem-se homens dignos de uma princesa. Confiem em que Deus vai lhes trazer a pessoa certa, na hora certa.
      Era tudo relacionado com o futuro, com os planos para o casamento. E quanto ao presente? Por que ningum ensinava qual era a maneira correta de se iniciar 
um namoro? De como se deveria agir em relao a emoes que variavam constantemente?
      E parecia que Shane ouvira seus pensamentos, pois ele pegou uma folha de papel que estava na Bblia dele e disse:
      - Isto aqui  um pensamento do escritor C. S. Lewis. Ele mw ajudou muito, numa poca em que eu estava procurando saber qual era a vontade de Deus para mim, 
e em que minhas emoes queriam dominar a razo. Ele diz o seguinte: "Os sentimentos so inconstantes; eles vm e vo. E quando eles vm, podemos tirar bom proveito 
deles. O que no podemos  permitir que se tornem nosso alimento espiritual."
      Selena apreciava muito os livros de C. S. Lewis. Considerava-o um homem inteligentssimo. Embora no conhecesse o trecho que Shane lera, concordou com ele. 
Ela sabia o que eram as emoes. Nos dias anteriores, havia deixado que elas inundassem sua vida. Hoje podia dizer com sinceridade que antes no tinha a menor idia 
do quanto suas emoes eram fortes. Queria que algum lhe explicasse essa questo.
      Shane concluiu recomendando aos jovens que escrevessem o que achavam que era a vontade de Deus e como o Senhor desejava que agissem em seus relacionamentos.
      - Se no tiverem isso bem definido, continuou o lder, vocs podero cometer um erro com relao ao namoro e a outras situaes da vida. Agiro como algum 
que primeiro lana um dardo na parede e depois caminha para ela e faz um crculo em torno do dardo, dizendo ento que acertou em cheio no alvo. O certo  primeiro 
fazer o crculo, ou seja, entender bem a vontade de Deus nessa questo. Depois  que iro saber se esto acertando o alvo ou no.
      Ele encerrou a reunio com uma orao e todos se foram cada um para sua barraca. Selena demorou um pouco perto da fogueira, na esperana de que Drake ficasse 
por ali tambm. Contudo ele saiu, junto com Ronny e Wesley. Os trs praticamente lhe deram boa-noite juntos. A garota permaneceu sentada por alguns minutos. Ficou 
a olhar para o cu, procurando alguma constelao que conhecesse. Entretanto ele estava bem mais nublado agora, e conseguia avistar apenas algumas estrelas qui e 
ali. No estava sabendo definir a que constelao pertenciam, j que as via sozinhas, e no em grupo. Era como se sentia naquele momento tambm - a nica que ficara 
ali.
      Ouvia Jana e Amy conversando em voz baixa na barraca da primeira. Mais adiante, alguns rapazes, numa outra barraca, caram na risada. Selena voltou para o 
seu alojamento e se enfiou no saco de dormir. Dezenas de pensamentos e sentimentos "zumbiam" em sua mente como um daqueles aviezinhos de aeromodelismo.
      Por que ser que Drake se afastou de mim l perto da fogueira? Ser que foi porque me afastei dele l no riacho? Ou ser que a palestra do Shane fez com que 
ele se convencesse de que precisamos estabelecer metas melhores para o nosso relacionamento? Ou talvez ele estivesse apenas se mostrando mais cuidadoso, porque eu 
disse que os outros estavam nos tratando de modo diferente.
      Os outros acampantes foram silenciando e se aquietando, mas os pensamentos de Selena continuavam a girar.
      Wesley pode ter conversado sobre mim com ele quando foram pescar.
      A garota meditou sobre essa possibilidade durante algum tempo e depois concluiu:
      Provavelmente foi isso que aconteceu. Preciso ter uma conversinha com aquele meu irmo super protetor.
      Remexeu em sua bagagem e pegou a lanterna de mo. Calou as botas, sentindo-as frias, e saiu silenciosamente da barraca. Caminhando p ante p, dirigiu-se 
ao lado onde estavam os alojamentos dos rapazes. Lembrava-se de que Drake e Ronny haviam armado a barraca deles perto da trilha. Chegou a uma tenda pequena, onde 
viu apenas um par de botas. Certamente era ali que Wesley estava.
      - Wesley! cochichou ela, abaixando-se e abrindo o zper da "portinha". Preciso conversar com voc.
      Entrou na barraca e, com gestos cautelosos, pegou um dos ps dele e deu um leve puxo.
      - Sou eu, Selena! Est dormindo?
      - Hummmpf! resmungou ele.
      - Acorda, viu? Preciso conversar com voc!
      - Que foi que aconteceu? indagou uma voz sonolenta.
      A garota estava com a luz da lanterna apontada para suas costas, pois sabia que Wesley detestava quando algum punha uma luz forte no rosto dele. A meia-luz, 
ela viu-o erguer-se um pouco. Parecia que ele estava com um gorro de malha na cabea.
      - Voc conversou com o Drake, no foi? disse ela cochichando, na esperana de que os ocupantes das barracas vizinhas no a escutassem, se ainda estivessem 
acordados.
      - Ahn?
      - Olhe, me escute s. No me interrompa para me dar conselhos, no, 't? Fica s me ouvindo, porque tenho pensado muito a respeito de tudo o que est acontecendo.
      Selena sentou-se ao p da "cama", com as pernas cruzadas  oriental, meio apertada naquele espao reduzido. Respirou fundo e em seguida se ps a falar.
      - Sabe de uma coisa? Acho que nesses ltimos dias tenho sido muito levada pelas minhas emoes. Em tudo que tenho feito ou falado, tenho agido por meus sentimentos. 
Parece que estou sendo "impulsionada" por eles. E na verdade, nem sei mais o que de fato estou sentindo.
      Correu os dedos pelo cabelo rebelde e continuou:
      - Quando eu e o Ronny comeamos a andar de mos dadas, por exemplo, gostei muito. Adorei as atenes dele.
      - Selena, sussurrou ele.
      - Deixe-me terminar, 't bom?
      O plano dela era "brigar" com o irmo por ele ter conversado sobre ela com o Drake. Agora, em vez disso, estava era abrindo o corao para ele.
      - O que estou comeando a entender  que eu gostava mais da ateno do Ronny do que do prprio Ronny. No que estivesse apaixonada por ele, ou achasse que 
estava e agora no estou mais, no. O que quero dizer  que... ah, voc sabe o que quero dizer. A ateno que eu recebia era mais importante do que a pessoa que 
me dava ateno. Bom, naquela noite que Drake foi l em casa e passou o brao em meu ombro, achei aquilo melhor ainda do que andar de mos dadas com o Ronny. Minhs 
emoes foram se intensificando, e eu s tinha um pensamento: ser que o Drake vai me beijar?
      - Selena... cochichou ele de novo.
      - Pode ficar tranqilo, seu "protetor do meio ambiente", ele no me beijou. Mas eu queria muito que beijasse. E depois que voc saiu e nos deixou l no riacho, 
no sei por que, mas parece que tudo mudou. De repente, eu no queria mais que ele me beijasse.
      Selena fez uma pausa, respirou fundo e continuou.
      - Hoje ele me disse que sou linda. Voc sabe o que isso representa para uma garota? Um rapaz dizer que ela  linda? A sensao que tive foi de que seria capaz 
de ir com ele aonde ele me levasse por causa das atenes dele e por me ter feito sentir algo to maravilhoso! Mas depois tudo mudou dentro de mim. Compreendi que 
no queria ser apenas mais uma das muitas garotas com quem ele sai. Entende o que estou dizendo? Meu sentimento se transformou completamente. Aconteceu exatamente 
aquilo que o Lewis disse e que o Shane leu. Eu estava me alimentando de emoes, e nada mais. No tenho lido a Bblia; e quando vou orar, minha mente vagueia demais. 
Estou inundada de emoes, mas sabe o que mais, Wesley? Sinto-me vazia.
      Ele estendeu a mo e tocou de leve no brao dela.
      - Selena... sussurrou de novo com mais intensidade na voz.
      - Wesley, sou um feixe de emoes confusas, prosseguiu a garota. A semana passada, mame me disse pra mostrar o que tem na minha cabea. Acho que j sei. Estou 
cheia de sentimentos. S tenho emoes e mais nada.
      - Isso no  verdade, disse o rapaz sentando-se.
      Havia algo estranho na voz dele.
      - Escute, estou tentando lhe dizer...
      Selena virou a lanterna para o rapaz a quem estivera fazendo aquelas confisses, iluminando o rosto dele. Seu corao parou. Era o Ronny! Respirou fundo para 
soltar um grito, mas antes que gritasse, ele se inclinou para ela e tapou-lhe a boca com a mo.
      
      

Captulo Vinte
      
      - Pssssiu! disse Ronny ainda tapando-lhe a boca. No diga nada. Vou solt-la mas tem de prometer que no vai dizer nada.
      Selena fez que sim. Seu corao estava batendo forte.
      Como  que ele foi deixar que eu falasse tudo aquilo? Eu lhe disse tudo! Que vergonha!
      - Agora  sua vez de me escutar, sussurrou o rapaz. No diga nada. S me escute.
      Ele se sentou  frente dela. A luz da lanterna estava virada para o fundo da barraca.
      - Voc tem razo quando diz que est dominada pelas emoes, Selena. Mas no fique se culpando por ser uma pessoa emotiva e sensvel.
      - Ronny... principiou ela, interrompendo-o.
      - Ssss. Deixe-me terminar. Todos ns estamos aprendendo muito nestes dias. Tenho de reconhecer que me senti muito envolvido com voc, quando comeamos a andar 
de mos dadas. Foi bom saber que para voc isso tinha outro significado. Eu estava comeando a achar que ramos mais que amigos. No sabia que voc gostava tanto 
do Drake.
      - Ronny... tentou ela de novo.
      - Ainda no terminei. O que quero dizer  que no deve ficar usando os rapazes para fortalecer sua auto-estima. Isso no  justo conosco. Parece que j decidiu 
que  o Drake que voc quer. timo. Fique sabendo que no poder ficar com os dois. Se for ficar com ele, eu saio de cena.
      - Voc  meu amigo, Ronny, insistiu ela.
      - No como era antes, replicou o rapaz. No posso ser seu amigo se voc est namorando. No vou fazer isso com o Drake nem com voc.
      - Fazer o qu?
      - Voc no est mesmo entendendo, no ?
      Selena comeou a ficar irritada. Ela no acabara de abrir o corao para ele, dizendo o quanto estava confusa e dominada pelas emoes? Por que agora ele tinha 
de jogar tudo de novo na cara dela? Sentiu lgrimas brotando nos olhos e o lbio inferior tremer. No queria que Ronny a visse chorar e por isso lanou mo da "sada" 
mais fcil: ficar com raiva para encobrir a mgoa que sentia.
      - Ah, deixe pra l, Ronny! Esquea que tivemos essa conversa. Voc  que no est entendendo nada.
      Ele esticou a mo e pegou o brao dela, para tentar acalm-la.
      - Selena... principiou ele.
      Ela deu um arranco para soltar o brao e remexeu-se para sair, mas a entrada estava fechada. Tentou dar um puxo forte no zper da "portinha", mas uma mecha 
de seu cabelo agarrou-se nele. Soltou um grito abafado.
      - Espere! falou Ronny.
      O rapaz inclinou-se para diante, tentando ajud-la a abrir o zper, sem saber que o cabelo dela estava preso nele.
      - Larga! exclamou Selena asperamente.
      Fez um movimento desajeitado, inclinando-se para um lado da barraca, e esta omeou a cair.
      - Ronny! gritou ela, vendo a lona descer sobre eles. Com isso, a lanterna ficou perdida. Ento os dois estavam envolvidos em total escurido, no meio da confuso. 
Ronny e Selena ficaram a engatinhar, batendo um contra o outro, procurando consertar a situao.
      - Meu cabelo! gritou ela. Solta meu cabelo!
      - Eu no estou segurando seu cabelo, no. Sai de cima das minhas pernas. No estou conseguindo me mexer.
      - Meu cabelo est preso no zper. Ai! Pronto, arranquei. Ronny, onde  que est a estaca central?
      - No consigo enxergar nada. Voc est encobrindo a lanterna.
      - Estou no. Voc  que est sentado em cima dela.
      - O que  que est acontecendo a? gritou uma voz l fora.
      Era Wesley falando alto para superar a barulhada deles.
      - Me tira daqui! berrou Selena em tom de splica.
      Em seguida, ouviram-se outras vozes.
      -  Selena que est a com o Ronny?
      - U, mas as meninas no podem ficar junto com os rapazes, no!
      - Por que ela est a com o Ronny? Ela no est namorando o Drake?
      - Algum me traz uma lanterna a, gente, disse Shane.
      Em menos de um minuto, a rea ao redor da barraca estava toda iluminada, com umas cinco ou seis lanternas. Selena afinal encontrou o zper e abriu a "portinha". 
Erguendo os olhos, viu dezenas de rostos a fit-la ao claro das lanternas.
      - Selena, disse Wesley no tom de voz que o pai deles tinha quando estava com raiva, o que voc estava fazendo a? Voc no sabe o regulamento?
      - Pensei que essa era a sua barraca, explicou ela, enxugando uma lgrima que lhe escorria pela face.
      - Eu tentei falar com ela, disse Ronny ainda debaixo da lona cada.
      - O que voc queria na minha barraca? Roubar minhas meias?
      - No, respondeu a garota, correndo os olhos pelos presentes e depois voltando a fitar o irmo. Queria conversar com voc. Achei que essa era a sua barraca. 
Pensei que, como voc  meu irmo, no haveria problema.
      - Mas no meio da noite? indagou Shane.
      - Era muito importante, respondeu ela.
      - Ah, isso era mesmo, interveio Ronny. Era muito importante.
      - Fique calado, Ronny, disse a garota. Gente, ser que no d pra esquecer este incidente? Aqui fora est gelado!
      - 'T bom! disse Shane. Todos de volta para a cama. Cada um para a sua cama.
      Enquanto o grupo se dispersava, Selena pensou o que seria que estava passando na cabea de todos, principalmente de Ronny e de Drake. Virou-se para sair. Drake 
surgiu  sua frente.
      - Tudo bem com voc? perguntou ele em voz baixa.
      Em meio  escurido, Selena no conseguia ver a expresso do rosto dele, mas no podia deixar de enxergar seu peito largo, envolto num bluso grosso.
      - Onde  que voc estava?
      Sem saber bem por que, sentia raiva do rapaz. A confuso toda fora culpa dele.
      - Troquei de lugar, explicou ele. A barraca do Wesley  maior e tinha mais espao para minhas pernas.
      Drake virou a lanterna para Selena.
      - Venha, disse ele, vou acompanh-la at a sua barraca.
      Ele andou com ela os seis ou sete metros que havia dali at o lado das meninas e deixou-a na "porta de casa".
      - Est tudo bem? indagou ele em voz sussurrada.
      - No sei.
      Selena entrou depressa antes que ele fizesse mais perguntas. Naquele momento, no queria conversar com ningum, a no ser, talvez, com Deus.
      
      
Captulo Vinte e Um
      
      Selena dormiu mal e acordou sentindo frio nos ps e no nariz. Durante a noite, havia coberto a cabea com o capuz do saco de dormir. Puxara o cadaro dele, 
encobrindo todo o rosto, deixando de fora apenas o nariz. Remexeu-se para abrir seu "envoltrio" e percebeu que a respirao estava saindo em pequenas nuvens de 
vapor.
      Embora sem muita vontade de se levantar, a garota foi saindo do aconchego quentinho e abriu o zper da porta da barraca. Passou a mo no cabelo encaracolado, 
tentando ajeit-lo um pouco, e, afinal, ps a cabea para fora para saudar o novo dia. Ergueu os olhos para o cu e recebeu os "cumprimentos" do aia: Flocos de neve 
caindo em seu rosto. Toda a rea onde estavam acampados achava-se recoberta de uma camada fina de neve, que mais parecia acar refinado. Sobre todas as barracas 
havia a mesma "poeira" branca. As rvores, com os galhos esbranquiados, pareciam prontas para ser vendidas num supermercado, para o Natal. Todo o acampamento lembrava 
um mundo de contos de fadas.
      O nico que sara da barraca fora Wesley. Ele amarrara o leno na cabea,  moda dos piratas, e estava tentando acender a fogueira. Selena dormira com a roupa 
com que estava vestida. Ento agora s precisou colocar na cabea seu bon de beisebol e calar as botas, que, alis, estavam muito frias. Caminhando em meio quele 
"mundo branco", foi para junto de Wesley e saudou-o com um grande sorriso.
      - Oi! disse.
      - Oi! respondeu ele.
      - E a? Vai me xingar?
      - Quando  que voc no precisa de uma boa repreeso? indagou ele brincalho.
      Selena jogou alguns gravetos na fogueirinha fumacenta que ele tentava acender.
      - Sobre o qu voc queria conversar comigo ontem  noite?
      A garota correu os olhos ao redor para ver se havia mais algum ali.
      - Sobre rapazes, emoes... Estou muito confusa.
      - Est comeando a perceber que no sabe cuidar de sua vida, no ?
      Num gesto brincalho, Selena deu um leve murro no brao dele.
      - Bate de novo, disse Wesley. 'T quentinho.
      - Mas estou falando srio, insistiu ela. Voc me ajuda a destrinchar tudo isso?
      O rapaz sorriu, fazendo surgir as ruguinhas no canto dos olhos.
      - Claro!
      Ele passou o brao pelo ombro dela, dando-lhe um leve aperto. Em seguida, deu um beijo no alto da cabea dela, sobre o bon.
      - Isso  muito difcil pra voc, no ? prosseguiu ele. Quero dizer, vir me pedir ajuda. Voc  sempre to independente...
      Selena fez que sim e se encostou mais a ele para se esquentar.
      - Ontem  noite, depois que deitei, compreendi que estava sendo independente demais e excluindo Deus desse aspecto de minha vida. Por causa disso, no estava 
iniciando o namoro de a uma forma muito legal.
      - Nunca  tarde demais para se recomear a buscar o Senhor. As misericrdias de Deus se renovam a cada manh.
      Selena ergueu a cabea e olhou para o cu, por entre as rvores. Ps a lngua para fora, tentando apanhar um floco de neve que caa.
      - Espero que meus amigos se sintam do mesmo jeito, comentou.
      s suas costas, eles ouviram o rudo de um zper de barraca se abrindo.
      - Ei! De noite nevou! era a voz de Shane. Acorda, pessoal! Temos de ir embora.
      Imediatamente, todos se levantaram e desmontaram o acampamento. Guardaram tudo nas mochilas e logo se puseram a descer o caminho pelo qual tinham vindo. Um 
vento cortante soprava no rosto deles, dificultando mais a caminhada. Todos seguiam em silncio. A situao agora estava muito diferente do passeio do dia anterior. 
Pelo planejamento, eles iriam ficar ali mais um dia. Deveriam andar mais quatro quilmetros e meio, atingindo uma altitude de dois mil metros. Nas condies atuais, 
porm, no seria sensato faz-lo.
      Selena e Wesley eram os nicos que no pareciam incomodados pela neve; e talvez os nicos tambm que estavam bem preparados para o frio. A garota ficou aconselhando 
os colegas que fossem comendo  medida que caminhavam e que bebessem muito lquido tambm, mesmo que no sentissem sede. Wesley deu-lhes orientao sobre os primeiros 
sinais de resfriamento do corpo, recomendando que trocassem de roupa se a que vestiam ficasse molhada.
      O cansativo percurso deu a Selena muito tempo para pensar. De certo modo, aquele passeio era uma "figura" da sua tentativa de namoro. Compreendeu que entrara 
nessa experincia despreocupadamente, "curtindo" cada momento dela. Agora esse retorno em meio ao vento e  neve f-la ciente de que precisava ter uma conversa particular 
com trs pessoas. E toda as trs seriam difceis, talvez at conflituosas.
      A primeira seria com Amy. E assim que pararam no meio do percurso para descansar e fazer um lanche, Selena se lanou na conversa com a amiga. Achavam-se num 
ponto que ficava a cerca de trezentos metros de altitude abaixo do lugar onde haviam acampado. E ali j no havia o menor vestgio de neve. Dentro da mata, o vento 
soprava no alto da copa das rvores, mas no incomodava muito os caminhantes.
      Selena chamou a amiga para um lado, afastando-se um pouco dos demais. As duas se sentaram sobre suas respectivas mochilas, e Selena ofereceu  colega um pedao 
do biscoito que estava comendo.
      - Tenho de lhe pedir perdo, principiou.
      - De qu?
      - Pelo jeito como eu e o Drake comeamos a namorar. Eu tinha conscincia de que voc estava interessada nele, mas no sabia o quanto voc o queria. Acho que 
no prestei muita ateno. Se tivesse entendido melhor seus sentimentos, creio que teria agido de modo diferente. Sinto muito por tudo que aconteceu, Amy.
      - Tudo bem, replicou a outra. No tem muita importncia, no.
      - Tem sim, insistiu Selena. Voc me disse que no ficaria chateada se eu sasse com ele. Mas assim que comecei a sair, tudo mudou entre ns duas. Eu valorizo 
muito sua amizade, Amy. No vou deixar que um rapaz venha atrapalh-la.
      - Obrigada, Selena.
      O rosto de Amy estava avermelhado pelo frio e seus lbio pareciam "queimados".
      - Quero ser sincera com voc, continuou ela. Alguns meses atrs, eu estava mesmo muito interessada no Drake, mas como vi que ele no sentia o mesmo por mim, 
meu interesse foi diminuindo. Quando ele comeou a virar para o seu lado, fiquei com inveja. Pensei que, se ele no podia gostar de mim, por que iria gostar de voc?
      Selena esfregou as pernas, tentando aquec-las.
      - , eu entendo, comentou.
      - Mas no era certo eu pensar isso, prosseguiu Amy. E quando ele lhe convidou pra sair, tive muita dificuldade para aceitar o fato. Agora j estou conformada. 
E voc tem razo; nosso relacionamento mudou mesmo. Ficou meio estranho. Eu no devia ter dado a impresso de que tudo estava bem comigo. S que eu no sabia como 
deveria agir. Desculpe-me por ter largado voc e ter ido para a barraca da Jana.
      - Tudo bem, respondeu Selena.
      - A semana passada, tive muitos problemas. Meus pais estavam brigando, e tudo o mais. No sei o que est se passando com eles agora, mas na segunda-feira, 
quando sa, parecia que estavam bem. Tudo havia voltado ao normal.
      - E conosco? Tudo voltou ao normal tambm? quis saber Selena.
      - S se recomearmos a caminhar, respondeu Amy. Estou ficando gelada!
      Elas se ajudaram mutuamente. Levantaram-se e foram andando de braos dados para junto dos outros jovens.
      Um problema est resolvido. S faltam dois, pensou Selena.
      No restante do passeio, ela foi orando. Agora percebia que seus pensamentos estavam mais claros. Fazia um bom tempo que isso no acontecia. E ela tinha muitos 
motivos para orar.
      Afinal, chegaram ao ponto onde haviam deixado a perua e o reboque estacionados. Eram os nicos veculos que restavam ali.
      - Que maravilha  um carro! exclamou Shane. Algum se lembra de onde foi que guardei a chave?
      Todos ficaram com expresso de preocupao, mas Shane logo esclareceu:
      - Estou s brincando, gente! Animem-se!
      E eles se animaram mesmo. Imediatamente guardaram a bagagem no reboque e entraram na perua, todos cansados e sujos. Dessa vez, Selena se sentou entre Amy e 
Jana. E as trs dormiram escoradas uma no ombro da outra durante todo o trajeto de volta.
      Chegaram ao estacionamento da igreja ao entardecer e viram que havia chovido ali. A essa altura, porm, o sol j voltara a brilhar, criando pequenos arco-ris 
nas cerejeiras que circundavam o ptio. Tudo estava exatamente do mesmo jeito como quando eles haviam partido.
      - Por que ser que aqui nada mudou, mas eu estou me sentindo diferente? indagou Amy.
      - Estava pensando o mesmo, comentou Selena. ... enfrentar umas adversidades  muito bom pra gente. De vez em quando,  preciso levar uma chacoalhada em nossa 
vidinha calma.
      E pegando sua mochila, acrescentou:
      - Acho que com isso revelamos o que temos na cabea.
      - , disse Amy, mas ainda no entendo como vocs podem achar que esse negcio de acampar  divertimento. No vejo a hora de tomar um bom banho quente e de 
aquecer no microondas alguma coisa pra comer. Acho que eu no seria uma boa pioneira *, no.
      Wesley pegou a mochila de Amy no reboque e entregou-a para ela. Selena teve a impresso de ver um leve sorriso no rosto do irmo. A mulher certa para ele seria 
aquela que soubesse se virar num acampamento, curtisse a natureza e os eventos mais simples da vida.
      Os participantes do grupo foram se despedindo um a um e entrando em seus carros. Ronny, Drake e Wesley ficaram ajudando o Shane a desengatar o reboque e a 
guard-lo ao lado do templo. Em seguida, o lder foi embora. Ficaram apenas Wesley, Selena, Amy, Ronny e Drake.
      - Querem ir l pra casa, pessoal? indagou Wesley, olhando para a irm com o canto do olho.
      Selena no gostou muito da idia do irmo, no. Era verdade que entre ela e Amy tudo se resolvera. Contudo continuava repassando seus pensamentos e ainda queria 
conversar com Ronny e Drake separadamente.
      - Sei no, replicou Ronny, dando uma olhada para Drake e Amy. Mas posso deixar vocs dois na casa dele, se vocs quiserem.
      - Agora, o que mais quero  um banho quente, comentou Amy. Voc pode me dar uma carona at minha casa?
      - Claro, respondeu o rapaz.
      - Pois eu vou para a casa deles, disse Drake, dirigindo a Selena um olhar carinhoso.
      - Quer que o deixe l? perguntou Ronny, evitando olhar para Selena.
      - No, disse Drake. Vou com eles.
      - Ento entra, falou Wesley.
      Selena ficou a olhar o carro de Ronny que se afastava. Sentia um forte desconforto emocional. Ronny estava fazendo o que dissera que iria fazer. Deixara de 
ser amigo dela.
      
      

Captulo Vinte e Dois
      
      Todos na famlia Jensen ficaram espantados de ver Selena, Wesley e Drake voltando mais cedo. A me foi logo pegar toalhas e mandou cada um para um banheiro 
da casa, para tomarem banho e depois virem jantar.
      Drake teve de pegar emprestadas algumas roupas de Wesley. Selena vestiu uma cala jeans e um bluso de moletom bem folgado. Que diferena vestir-se daquele 
jeito em comparao com a maneira como se arrumara para ter seu primeiro encontro com Drake. Agora no estava mais preocupada em causar boa impresso ao rapaz. A 
que se devia essa mudana? As dificuldades enfrentadas no passeio? Ou ser que suas emoes finalmente haviam sossegado?
      Depois do jantar, Selena e Drake foram se sentar no balana da varanda. Esse momento era um dos instantes romnticos que ela pensara viver nessas frias. Contudo, 
agora que estava ali ao lado de Drake, tudo parecia diferente daquilo que imaginara. Isso talvez se devesse ao fato de que ela sabia que precisava ter aquela conversa 
com ele e o que iria dizer.
      - Drake, principiou ela, voc j riscou os seus alvos para o namoro, como disse o Shane? J pensou o que quer?
      - J, replicou ele. Meu alvo  passar alguns momentos em sua companhia e conhec-la melhor. Por qu?
      - Porque eu ainda no fiz os meus. Estou como aquele exemplo que o Shane deu. Joguei um dardo na parede e depois fui l e fiz um crculo em volta dele, pensando 
que acertei no alvo. O fato  que ainda no estou preparada para sair com voc.
      - Tarde demais! J samos, comentou o rapaz, esticando o brao no encosto do balano e tentando puxar a garota para mais perto dele.
      - Estou querendo dizer "namorar", sabe, ficar junto com voc assim. Passarmos momentos a ss, s ns dois, explicou ela, sentindo o calor da mo dele em seu 
ombro.
      - E o que h de errado nisso? indagou Drake com voz grave.
      A vontade de Selena era relaxar-se nos braos dele e dizer: "No h nada errado com isso. Tudo est maravilhoso. Voc  maravilhoso. Vou ignorar essa vozinha 
incmoda em minha mente."
      Contudo no era capaz de diz-lo. Comprimiu os lbios o tomou uma deciso muito difcil. Havia muito tempo que no tomava uma atitude to penosa. Lentamente, 
foi se afastando dele e do calor de seu corpo junto dela. Encostou-se no brao do balano, virou-se de frente para ele e explicou:
      - Drake, tenho de resolver tudo isso por mim mesma. Primeiro preciso estabelecer meus alvos para o namoro e desenhar o crculo antes de comear a atirar os 
dardos. Est entendedo o que quero dizer?
      O rapaz fitou-a com uma expresso que era um misto de espanto e gozao.
      - Est terminando comigo antes de completarmos uma semana de namoro?
      - No sei. Ser que  isso mesmo que estou fazendo? O que sei  que no posso continuar aprofundando meu relacionamento com voc assim, como se estivssemos 
namorando, sendo que ainda no compreendi direito o que isso vai significar na minha vida.
      Lembrou-se do comentrio que sua me fizera sobre ela, de que era muito bom que ainda no tivesse sido beijada, pois, antes de isso acontecer, ela precisaria 
saber exatamente o que estaria "entregando". Agora aquela palavra dela comeava a fazer sentido em sua cabea.
      - E ento? O que vai dizer? indagou Drake com ar de surpresa.
      - Vou dizer que gostaria muito de conhec-lo melhor e passar alguns momentos em sua companhia nestas frias, mas sem ter de excluir de minha vida meus outros 
amigos. Preciso pensar melhor nos meus alvos para o namoro. O problema no  com voc. No fez nada errado. Pelo contrrio, tudo que fez foi maravilhoso.
      Selena ergueu os olhos, tentando controlar as lgrimas que comeavam a se formar no canto deles.
      - O problema sou eu. Acho que estou muito imatura ainda.
      - Voc no tem nada de imatura, Selena, retrucou Drake.
      - Bom, tem algum aspecto de minha personalidade que ainda no est preparado para o namoro. Quero me "equilibrar" melhor. Compreende o que estou querendo dizer?
      O rapaz retirou a mo do encosto do balano e cruzou os braos.
      - Est dizendo que quer que sejamos apenas amigos.
      - Mais que amigos, respondeu a garota prontamente. Bons amigos; mas no namorados. Quero que a gente possa sair juntos, sem excluir os outros. Entende?
      - Creio que sim.
      Ele no parecia estar zangado; apenas ligeiramente magoado. Ao que Selena percebia, parecia que ela era a primeira garota que ele pedia para namorar srio. 
Provavelmente, estava espantado de ela querer acabar tudo depois de to pouco tempo.
      -  como o passeio que fizemos, continuou a garota. Eu j acampei diversas vezes, mas pra voc essa foi a primeira vez. Agora, na prxima ocasio em que voc 
fizer outro passeio desses, j saber o que deve fazer. Saber o que deve levar e o que no precisa. Na questo do namoro, voc  mais experiente, e eu sou iniciante. 
Voc se sente bem mais  vontade nele do que eu.
      - , isso est mesmo parecendo com o nosso passeio, comentou Drake. Estamos "voltando atrs" mais cedo do que imaginvamos.
      - Mais ou menos, concordou Selena. Est se sentindo frustrado por isso?
      - S quando sinto frio, replicou ele, apontando a distncia que havia entre ele e ela ali no balano.
      Selena compreendeu que ele desejava sentir o calor e a proximidade dela, assim como ela tambm sentira o impulso de se achegar mais a ele.
      - Antes de comear a namorar srio, preciso entender, por mim mesma, essa questo da afeio fsica tambm. Quero dizer, ser que andar de mos dadas significa 
para voc o mesmo que para mim?
      -  provvel que no, replicou Drake.
      - E voc j beijou muitas garotas? indagou Selena, com seu jeito franco de abordar os problemas.
      - No muitas.
      - E o que isso representou para voc?
      - Sei l. Foi s um beijo, respondeu o rapaz rindo, com um leve trao de nervosismo.
      - Pois pra eu beijar um rapaz, tem de representar mais do que isso, explicou a garota. Precisa ser mais do que uma demonstrao de afeto. Acho que tem de ser 
o princpio de um compromisso.
      - Voc pensa demais, Selena.
      - Talvez. Mas  melhor pensar muito do que ser totalmente dominada pelas emoes como eu estava nos ltimos dias. Tenho de achar um ponto de equilbrio.
      - Tudo isso significa, ento, que voc no quer que eu venha mais aqui? quis saber Drake.
      - No, claro que no. Pode vir sempre que quiser. E quero sair com voc para nos divertirmos juntos, mas em grupo, e no os dois sozinhos.
      - Bom, ento voc quer que voltemos ao ponto no qual estvamos antes daquele dia em que fomos ao parque com o Brutus?
      - Exatamente, explicou Selena. 'T bom pra voc assim?
      O rapaz pensou um instante e depois, levantando um pouco o queixo, respondeu:
      - Est. D pra sobreviver.
      - timo! exclamou Selena.
      Sentia como se tivessem tirado um peso de seus ombros. E agora, em vez de ficar pensando se Drake iria beij-la ou no, veio-lhe a idia de ligar para a Tnia 
e lhe contar tudo que acontecera. Queria perguntar-lhe tambm se ela j escrevera os seus alvos para o namoro.
      Quando Drake saiu, Selena tinha certeza de que tudo entre eles estava acertado. Haviam conseguido voltar atrs no namoro, e o rapaz no ia morrer por isso. 
Agora s faltava acertar os ponteiros com o Ronny. Pensou em telefonar-lhe naquele momento. Contudo j era tarde e estava exausta. Resolveu que iria ligar-lhe bem 
cedo no dia seguinte.
      De manh, ento, discou para o Ronny. A me do rapaz atendeu e disse que ele j sara. Fora aparar um gramado na rua 52. Selena vestiu uma camiseta e um short 
e calou o tnis. A seguir, desceu as escadas correndo. Wesley estava na cozinha.
      - Diga pra mame que dei uma sada e volto daqui a uma meia hora, gritou para o irmo.
      

Captulo Vinte e Trs
      
      Selena entrou no carro e seguiu na direo da rua 52. Passou em frente  confeitaria Mother Bear. Obedecendo ao impulso do momento, parou e entrou l como 
freguesa. D. Amlia ficou espantada de v-la.
      - , disse Selena, voltamos todos sos e salvos. Quero dois pezinhos com muito glac e trs caixinhas de leite.
      -  bom ver que esse pouco tempo que voc passou no mato lhe ensinou a apreciar as delcias da vida! exclamou D. Amlia, entregando-lhe o saquinho com seu 
pedido.
      A garota, que estava contando o troco, fez uma pausa e comentou:
      - Sabe, D. Amlia? O pouco tempo que passei l me ensinou a dar valor a uma poro de coisas.
      Saiu apressadamente porta afora, entrou no velho fusca e foi rodando barulhentamente em direo  rua 52. Ronny estava com o fone de ouvido do walkman e no 
escutou o rudo do carro que se aproximava.
      - Ronny! gritou Selena em voz bem alta por causa do barulho do motor do cortador de grama. Oi, Ronny!
      Naquele instante, ela compreendeu que, se o Ronny no continuasse sendo seu amigo, aquele ltimo ano na escola iria ser terrvel. No suportava v-lo ignorando-a 
assim, como parecia estar fazendo agora.
      Foi para onde ele estava e resolutamente postou-se no caminho da mquina. Levantou o saquinho com os pezinhos e gritou:
      - Pausa para o lanche!
      O rapaz desligou o motor e fitou-a. Pareceu ter ficado tenso, cauteloso, como algum que est em guarda. No tinha muita certeza se ficava satisfeito de v-la 
ou no.
      - Pode dar uma parada? indagou Selena.
      - Creio que sim.
      Selena deu uma corrida at o carro e pegou no porta-malas um cobertor velho que a me sempre deixava ali para qualquer emergncia. Os dois o estenderam embaixo 
de uma rvore e se sentaram.
      - O que est acontecendo? indagou Ronny.
      A garota entregou-lhe as duas caixinhas de leite que ele geralmente tomava. De repente, sentiu-se um pouco como Amy: levando comida para um rapaz s para obter 
a ateno dele.  talvez fosse uma boa idia!
      - Quero voltar no tempo, disse Selena. Voltar ao tempo em que ramos amigos.
      - E Drake? indagou Ronny.
      - Ontem  noite conversei com ele e disse que queria ser apenas colega dele tambm. Quero que voltemos a ser todos apenas amigos.
      Ronny deu uma dentada no pozinho e esperou que a garota continuasse.
      - J compreendi que ainda tenho muito o que aprender antes de comear a namorar, explicou ela. Nestas frias, vou fazer os meus alvos para o namoro, organizar 
bem as idias, para que minhas emoes no me dominem de novo.
      Aqui ela parou e fez um gesto para Ronny, indicando-lhe que estava com um pedacinho de glac agarrado no canto da boca.
      - E a, o que voc acha? Podemos voltar atrs? Perguntou ela.
      - No, respondeu Ronny sem maiores explicaes e dando outra mordida no po.
      Selena tambm deu uma dentada no seu e ficou esperando.
      - No podemos voltar atrs, Selena. S podemos ir para a frente.
      - Mas quero apagar um bocado de coisas que aconteceram, disse ela. Como aquela noite que entrei na sua barraca. Queria que voc esquecesse tudo que lhe falei 
naquela hora.
      - U! Por qu?
      - Porque falei tudo que estava sentindo.
      - Selena, acho que voc ainda no entendeu que pode confiar em mim e me falar de seus sentimentos. No tenha medo deles. Ter emoes  algo que faz parte de 
nossa personalidade. Sei que elas mudam. As de todo mundo mudam. No precisa ficar com vergonha disso.
      Ronny deu outra mordida no pozinho e em seguida continuou:
      - Foi muito bom voc ter aberto o corao pra mim l na barraca. Agora eu a compreendo melhor. E aquilo que disse l, falei srio. Se quiser namorar outro 
rapaz, no vou interferir em nada. Eu me afasto do seu caminho. Tambm estou precisando destrinchar uma poro de coisas na minha vida.
      - Ainda no estou preparada para namorar, disse Selena.
      Deu outra mordida no pozinho e em seguida completou:
      - S quero colegas. Preciso de muitos amigos.
      Ronny deu um daqueles seus sorrisos, com os lbios meio tortos.
      - 'T bom. Ento somos colegas, disse ele concordando.
      Selena tomou um grande gole de leite e saboreou lentamente o ltimo pedao do pozinho doce. No alto, no cu azul, quatro passarinhos fizeram um vo rpido, 
"tagarelando" uns para os outros. Um esquilo deu uma corridinha sobre o fio de telefone e saltou numa rvore prxima, abrigando-se no meio de sua folhagem verde 
e densa. Do outro lado da rua, no gramado da casa em frente, dois garotinhos corriam descalos, soltando gritos agudos.
      Selena inclinou as costas para trs, apoiando-se nas mos. Respirou fundo, sentindo o cheiro da grama recm-cortada. Notou que a vozinha insistente que ouvia 
no fundo da mente se calara. No tinha mais dvida se o que estava fazendo era certo. Comeava a sentir que agora agia corretamente, porque fizera o que era certo, 
equilibrado.
      E Ronny tambm tinha razo. No podiam mais voltar atrs. S poderiam seguir em frente. E como parecia que cada passo que dava com seus amigos os levava sempre 
para mais perto de Deus e os tornava mais amigos uns dos outros, Selena teve a certeza de que aquelas frias seriam as melhores de sua vida




Fim

* Deque: espcie de ptio ao fundo ou  frente da casa, cujo piso  recoberto de tbuas paralelas. (N. da T.)
*  muito comum, nas residncias americanas, haver uma cesta de basquete afixada  parede,  frente da casa. (N. da T.)
* Donut: uma rosca em formato de "pneu", feita com massa semelhante  do "sonho". (N. da T.)
* Pioneiro: nome dado aos primeiros desbravadores do serto dos Estados Unidos, mais ou menos semelhantes aos nossos bandeirantes. (N. da. T.)
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